quinta-feira, 11 de junho de 2009

CRASS E A REVOLTA


Agora escuto a banda cascuda do anarco-punk rock inglês

C-R-A-S-S


Os caras moravam no sítio


Detonavam com as bandas vendidas


e produziam e vendiam seus trabalhos em pequenas circulações


Tinham como principal alvo: a burocracia inglesa e a igreja católica.


Pense nuns bicho doido

quinta-feira, 4 de junho de 2009

SÓ ROBERTO CARLOS SALVA


Hoje a tarde

com aquelas tardes quentes de Fortaleza

céu azul com nuvens esparsas, cúmulos, cirros, estratos.


Roberto Carlos tocava no ônibus

e eu lembrava de anos que eu não vivi

com ansiedade, fúria, desespero e síncope.


Era Roberto Carlos de uma coletânea da década de 70

a estranha e pesada década de 70

da qual me fixo a infância.

Sim.A infância sem pai.A infância dentro de ônibus

vendo pessoas tristes e assalariadas.


No meu poema não cabe a tristeza desse menino lá fora

no Sol quente contando os trocados de um parabrisa que limpou.

No meu poema não cabe o sofrimento do mendigo

com a perna bichada que estende a mão lá fora.


No meu poema, egoísta que sou só cabe minhas miudezas

meus desmaios, minhas lágrimas contidas e minhas saudades.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

TRABALHO SOCIAL, PODER E SATANIZAÇÃO ENTRE EVANGÉLICOS


Este estudo pretende problematizar várias questões referentes ao trabalho social feito por evangélicos e as implicações do Poder sobre o entendimento da natureza desse trabalho.O artigo também pretende abordar a estratégia de satanização como forma de exercício de poder.


A filantropia na década de 80 era vista por setores da esquerda como assistencialismo que promovia, junto aos setores de baixo poder aquisitivo, mais dependência do que emancipação social.Hoje em face de termos na América Latina vários governos protagonizados por setores de esquerda e - mais especificamente no caso brasileiro, um segundo mandato de um governo de esquerda com vários programas de renda mínima(Fome Zero, Bolsa Escola etc.) - a crítica ao assistencialismo parece coisa do passado, já que até os governos de esquerda o fazem.


As igrejas evangélicas são estruturas de poder, é lógico que não tem o respaldo de uma máquina pública como a rede social governamental, mas possui muito poder econômico e simbólico.


O poder simbólico das igrejas compreende-se como a esfera de controle social sobre o imaginário populacional.A igreja pretende controlar a subjetividade das pessoas de seu raio de ação e de fora delas através de diversas estratégias.Os pastores de seus púlpitos televisionados ou não controlam o comportamento de seus fiéis apelando para os preconceitos e predisposições de cada um, ora satanizando religiões afrobrasileiras, ora satanizando minorias sexuais.


O poder econonômico compreende-se como a esfera de poder alicerçada no dizimismo que poderá sustentar o trabalho pastoral das igrejas evangélicas mais sérias como os luxos dos pastores das igrejas calcadas na teologia da prosperidade.


Todo esse preambulo foi para falar não do trabalho institucional dessa ou daquela igreja evangélica de grande porte (como por exemplo, a ação de solidariedade aos desabrigados das enchentes do sertão cearense) mas do chamado "trabalho de formiguinha" feito anônimamente por esse ou aquele evangélico longe dos holofotes da mídia.


Nesse parte para entender a fenomenologia desse trabalho não podemos deixar de pensar no conceito da micropolítica. Quando um eletricista evangélico de um bairro pobre escolhe um adolescente do seu quarteirão para ensinar-lhe os rudimentos do ofício de eletricista, esse senhor sem saber está fazendo trabalho social e está tendo uma atuação micropolítica.Quando um casal de evangélicos resolve se dedicar nas horas vagas a atender moradores de rua, fazendo-lhes a barba, cortando-lhes as unhas, dando-lhes banho, mesmo sem este casal ter posses ou o respaldo da cúpula da igreja, eles estão fazendo trabalho de assitência social.


Como sou anarquista, essa fenomenologia muito me interessa, pois o anarquismo busca cada vez mais a descentralização da sociedade em escala global e internacional, entendida como o "despoderamento" gradual das instituições, visando o "empoderamento" contínuo das pessoas.


Quando o eletricista do exemplo anterior, mesmo sendo de uma classe social de baixo poder aquisitivo resolve escolher um adolescente para ensinar-lhe o seu ofício ele está demonstrando o quanto é "poderoso".O quanto ele é sujeito, numa sociedade educada pelas instituições do poder que o quer reduzir a objeto.


A noção de igreja como "ecclesia"( comunidade) revela o princípio comunal de que se reveste.O pertencimento evangélico revela como os irmãos se solidarizam entre si e fora de seu círculo de relações - falo aqui não só do eletricista ou do casal que atende os moradores de rua, mais de iniciativas isoladas deste ou daquele pequeno grupo de resolve fazer uma benfeituria para uma família pobre, por exemplo. Ás vezes este trabalho poderá ser feito com intenções de proselitismo religioso e, às vezes, não, será apenas visando a solidariedade desinteressada.


Todo essa fenomenologia mostra a peculiaridade do pertencimento religioso dos setores populacionais evangélicos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

NOITE DE SÁBADO



NOITE DE SÁBADO
Noite de sábado.

Uma semana se passou.
Um ano se passou.
E tudo permanece igual: noite de sábado, sozinho.

Olho a programação de tv;
Vejo algum programa humorístico;
Escuto alguma estação de rádio;
Leio algum livro empoeirado ou mofado
nesse longo inverno chuvoso em que estamos.
Pois é Sábado e estou sozinho.

Os bares estão cheios.
As igrejas estão cheias.

E eu estou cheio dos bares e das igrejas
e por isso estou sozinho nesta noite de Sábado.

Tento me acompanhar das cartas de tarô

Tento me acompanhar das efemérides astrológicas
Tento maquinar sozinho alguma grande e sagrenta revolução pacífica
Tento maquinar um calendário de ações contra a poluidora sociedade do automóvel
Tento me acompanhar das pedras e dos monturos

É mais uma noite insone de Sábado.

sábado, 18 de abril de 2009

ETNOGRAFIA DE UM DISQUE AMIZADE GLS


Com este estudo pretendo analisar um Disque Amizade GLS da cidade de Fortaleza.No caso falo do serviço telefônico 3468 3000, criado para atender ao público de gays, lésbicas e simpatizantes da capital do Ceará.

A Etnografia foi criada originalmente para descrever povos e etnias indígenas e só mais tarde também foi utilizada para descrever os hábitos e códigos culturais de outras comunidades.

Descrever os hábitos, gestos, símbolos, ritos e mitos de uma comunidade exige que o pesquisador se disponha até ir ao seu locus de pesquisa.Mas e quando se trata de observar os hábitos e representações de uma comunidade de falantes como de uma sala de bate-papo gls telefônico? Aqui a tarefa pode se tornar temerária e difícil, pois uma coisa é o pesquisador ir até um ilê de candomblé ou uma igreja evangélica ou a sede de um coletivo de anarco-punks observar e registrar o que percebe nesse lugar.Mas quando se trata de uma comunidade fluida como é uma sala de bate-papo? Como observar regularidades e recorrências quando há cada cinco minutos a sala se preenche de novas pessoas e sem falar que essas pessoas podem assumir personalidades que não são as suas?

Qual a relevância de observar gays, lésbicas e bissexuais conversando num serviço telefônico? Esse estudo pode fornecer dados para pesquisadores em etnografia e psicologia social, pois ao dar ouvidos ao que esses indivíduos conversam somos confrontados com suas crenças e cosmovisões particulares.

No serviço não há só pessoas que ligam da cidade de Fortaleza, mas também usuários que ligam da região Metropolitana, de cidades mais afastadas como Juazeiro e eu já conversei com um rapaz que falava de Pernambuco.

A questão da identidade numa sala como essa é bem curiosa.Muitas pessoas usam nomes falsos e até criam personalidades postiças.Homens, originalmente másculos no seu cotidiano, na sala atendem pelo nome de "Pamela Skylab" e usam gíria do universo das drag-queens e das travestis.

Os objetivos de quem liga variam muito.Vai desde homens casados que ligam para marcar um encontro sexual e furtivo com outro usuário enquanto a esposa enfermeira foi dar um plantão até rapazes que ligam apenas para ouvir os amigos que participaram do show da Alanis Morisseti.

As representações que esses usuários tem da comunidade homossexual, assim como a cosmovisão gls é bem peculiar.Revela uma comunidade, um pertencimento populacional de hábitos culturais bem específicos.

Ao ouvir essas pessoas o pesquisador pode identificar o preconceito e a desigualdade social que também existe no universo ideológico da comunidade de homoafetivos.Várias vezes presenciei homens gays da Aldeota perguntando se havia gays do mesmo bairro na sala, pois segundo eles não queriam conversar com os gays das regiões mais pobres de Fortaleza.Isso se evidencia ou em afirmações explícitas ou em comentários jocosos sobre o que esses gays endinheirados denominam de 'bichas pão-com-ovo".

O preconceito e a elitização econômica também fica evidenciado quando se ouve os gays que foram para o show da Alanis Morisseti fazem questão de frisar o quanto gastaram no preço do ingresso, no consumo de bebidas e iguarias caras durante o show e no retorno para casa tarde da madrugada em carros caros e importados.

As representações desses indivíduos revelam porque a industria do entretenimento investe tanto nesses gays endinheirados e revela também a lucratividade de apostar nesse "nicho de mercado".

Certa vez foi interessante ouvir de uma drag-queen como ela compreende o relacionamento homossexual.Basta ver o filme americano "O segredo de brokeback mountain" pois lá há a explicação de como termina todo relacionamento entre gays: um morto e outro olhando para uma jaqueta.

O que se pode perceber nos usuários desse serviço é de que há um queixa comum:a da solidão.
E dá para se concluir o motivo, pois na pós-modernidade a tônica dos relacionamentos e dos vínculos é o esgarçamento, a superficialidade dos contatos.As pessoas vivem um paradoxo de não quererem fidelizar relações e ao mesmo tempo quererem estabilidade.Como posso ter estabilidade se não me fidelizo ou não me ligo profundamente a ninguém?

Uma coisa que merece menção é a participação lésbica na sala:pequena e contida.E outra menção é a grande quantidade de bissexuais que ligam para o serviço com intenções apenas de satisfazer genitalmente seus instintos sem maiores vínculos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

PORTAS FECHADAS E ENTRE-ABERTAS


Este será mais um poema vacilando entre a poesia e a prosa

Será mais um poema

que glosará

sobre as portas fechadas

que tenho encontrado pela vida.


E sobre algumas portas apenas entre-abertas.

Ás vezes até vejo casarões que poderiam me acolher

e que não me acolhem.

Fico do lado de fora,

batendo no seu portão,

vendo seu cadeado

e tomando sol ou chuva

porque já está cientificamente

comprovado

que sou mais um futuro desempregado

e sem poder de compra

mais um

e nada mais


Fortaleza e seus joguinhos de cartas marcadas.

Seus concursos públicos cheios de bastidores privados.

Não faço parte de nenhuma máfia

e por isso fico endividado.


sábado, 31 de janeiro de 2009

PÓS-MODERNIDADE E ENSIMESMAMENTO


Este texto surge de uma constatação: o ensimesmamento é a tônica dos habitantes de Fortaleza.


Cada vez menos há lugar em Fortaleza para uma boa conversa.Há cada vez menos lugares com pessoas interessantes para se conhecer.


Nas praças públicas do Centro da cidade, o movimento de pessoas diminuiu bastante, principalmente depois das 20 horas. Para onde vão os transeuntes das praças? Para os bares onde não se pode conversar, devido à música barulhenta ou será que os transeuntes nem saíram de casa com medo de assaltos e estão na solidão de seus condomínios fechados?


As pessoas estão trancadas ou se trancando, ensimesmadas nos seus mundinhos fechados, sem lugar para partilhar uma conversa que dure mais de 10 minutos.