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quinta-feira, 22 de julho de 2010

A REVOLTA LUDDITA




A REVOLTA LUDDITA
Charles Odevan Xavier

Este artigo pretende analisar o Movimento Luddita que ocorreu na Inglaterra nas primeiras décadas do século XIX.O movimento foi organizado pelos operários ingleses, revoltados por terem sido expulsos do campo, onde tinham pequenas propriedades rurais e passaram a adotar técnicas radicais de sabotagem de máquinas ou até de destruição do maquinário fabril e têxtil, no que resultou numa dura reação por parte do governo inglês: vários operários foram enforcados por quebrarem máquinas.Ou seja, o capitalismo urbano-industrial nascente mostrava a todos os cidadãos precarizados das urbes quem era mais importante para ele: a máquina, o lucro, o bem-estar do patrão.

O operário não era importante.Sua subjetividade, seus sonhos, desejos não contava.O que contava era que ele acordasse cedo com escuro e chegasse tarde em casa.Dormisse no máximo cinco horas por noite apenas para recuperar as forças físicas, para no dia seguinte voltar a um trabalho estafante, num ambiente sujo, empoeirado, úmido, escuro, sufocante.No início da industrialização da produção urbana e fabril, os fabricantes obrigavam os pais até a trazerem os filhos para as fábricas.E além das constantes mutilações nas máquinas por parte dos adultos cansados e mal alimentados, as crianças também foram vítimas de mutilações além de castigos corporais dados pelos capatazes das fábricas.

Ou seja, todo esse contexto foi gerando um espírito de revolta na classe operária inglesa da época.E os operários passaram a fazer a coisa mais lógica: destruir o maquinário que os oprimia.

A historiografia burguesa ou marxista mostra os revoltosos ludditas como um movimento desorganizado e espontaneísta.Mas a historiografia de orientação anarquista, como a obra "Os destruidores de Máquinas:In Memorian" de Cristian Ferrer, editada pelo selo anarquista Imprensa Marginal ( Caixa Postal 665 Cep 01059-970 Sp -Sp - imprensa_marginal@yahoo.com.br) revela dados impressionantes sobre o tipo de estratégias utilizadas pelos operários daquela época.A organização não era rígida nem burocrática, mas era extremamente eficiente e solidária.

Várias vezes a polícia inglesa tentou cooptar a classe operária oferecendo recompensas para quem delatasse os líderes revoltosos.As pessoas iam a delegacia, faziam delações falsas, recolhiam o dinheiro e iam para outra delegacia pagar a fiança de líderes presos.Ou seja, demonstrando o grau de consciência de classe e consciência política do operariado inglês.Ainda que essa consciência não fosse fruto de uma elaboração intelectual muito sólida ou respaldada num saber livresco.Muito pelo contrário, a classe operária inglesa não era muito escolarizada até pelo fato de terem vindo da zona rural onde o acesso à escola era muito difícil.O que prova que o chamado "povão" só é otário quando quer.Ou seja, as pessoas de baixo poder aquistivo, de pouca escolaridade, quando sentem na pele que estão sendo oprimidas e humilhadas pelos poderosos tem a total capacidade de se organizar e botar o opressor para correr.

Mas um dado surpreendente para mim do livro de Christian Ferrer: a maioria desses revoltosos ingleses eram camponezes da igreja metodista.Ou seja, mostrando que a religião evangélica inglesa daquela época em nada se parece com a igreja evangélica brasileira de hoje, totalmente bajuladora dos poderosos.

Os operários ingleses estava acostumados com uma vida tranquila no campo, onde não havia luxo mas todos tinham o de comer e não precisavam pagar aluguel. Pagavam apenas uma parte do que produziam para o dono do feudo. Ser expulso para a cidade grande, para servir de mão-de-obra quase escrava, morando em bairros péssimos e tendo que trabalhar o tempo todo, foi uma experiência traumática para esses ingleses pobres.Porque no feudalismo os camponezes trabalhavam poucas horas por dia, dependendo da sazonalidade das safras, indo dormir quando o dia escurecia enquanto na cidade grande as pessoas acordavam cedo e não paravam de trabalhar, pois com a eletrificação urbana o patrão raciocinava que não havia motivo para ir para casa.

É lógico que isso agredia a saúde física e psíquica desses trabalhadores e a solução não foi ficar rezando por dias melhores ou esperando o repouso no céu.Os trabalhadores ingleses partiram para ação e resolveram radicalizar.Identificaram no maquinário uma forma de manutenção de uma sociabilidade nociva, insana.Identificaram no maquinário a simbologia de uma cultura de instrumentalização do ser humano.Ou seja, o ser humano reduzido a sua dimensão mais utilitária.E toda vez que um operário perdia um braço ou um dedo no maquinário e era sumariamente demitido sem nenhum direito ou indenização, ficava claro para a classe operária inglesa como os patrões os encaravam: como coisas e não como gente.Ou seja, como força de trabalho, como algo que dá lucro ou prejuízo e nada mais.

Ou seja, num sistema social brutal e odioso como esse, só havia uma forma de impedi-lo de perpetuar-se: destruindo o maquinário têxtil que o reproduzia.Destruir a máquina era um gesto de recusa a uma vida absurda e alienada.Ou seja, o que os operários queriam eram se reapropriar de suas vidas.Ter o total controle sobre ela.É lógico que a reação dos patrões, do governo e da polícia foi brutal: quem eram esses "caipiras", esses analfabetos que ousam se rebelar contra nossa tirania? Vamos enforcar todos os líderes desse movimento.

O movimento luddita foi esmagado pela classe dominante e suas técnicas assassinas mas por outro lado foi vitorioso, porque obrigou o governo inglês a conceder alguns direitos à classe operária.Como aliás sempre o Estado capitalista faz: para não perder tudo e produzir uma situação incontrolável de convulsão social, os gestores públicos acabam fazendo pequenas concessões ao povo.E é nisso que a classe dominada pode acabar sendo enfraquecida por acomodação, passividade e por uma falsa ilusão de que participa da sociedade de consumo quando o seu poder de compra aumenta, ainda que de forma insignificante.Contudo, os ludditas mostraram para os patrões que os trabalhadores não são os "carneirinhos" dóceis e mansos que eles incentivam com toda uma indústria da passividade.Mostraram que a qualquer momento o germe da revolta pode se espalhar novamente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

TRABALHO SOCIAL, PODER E SATANIZAÇÃO ENTRE EVANGÉLICOS


Este estudo pretende problematizar várias questões referentes ao trabalho social feito por evangélicos e as implicações do Poder sobre o entendimento da natureza desse trabalho.O artigo também pretende abordar a estratégia de satanização como forma de exercício de poder.


A filantropia na década de 80 era vista por setores da esquerda como assistencialismo que promovia, junto aos setores de baixo poder aquisitivo, mais dependência do que emancipação social.Hoje em face de termos na América Latina vários governos protagonizados por setores de esquerda e - mais especificamente no caso brasileiro, um segundo mandato de um governo de esquerda com vários programas de renda mínima(Fome Zero, Bolsa Escola etc.) - a crítica ao assistencialismo parece coisa do passado, já que até os governos de esquerda o fazem.


As igrejas evangélicas são estruturas de poder, é lógico que não tem o respaldo de uma máquina pública como a rede social governamental, mas possui muito poder econômico e simbólico.


O poder simbólico das igrejas compreende-se como a esfera de controle social sobre o imaginário populacional.A igreja pretende controlar a subjetividade das pessoas de seu raio de ação e de fora delas através de diversas estratégias.Os pastores de seus púlpitos televisionados ou não controlam o comportamento de seus fiéis apelando para os preconceitos e predisposições de cada um, ora satanizando religiões afrobrasileiras, ora satanizando minorias sexuais.


O poder econonômico compreende-se como a esfera de poder alicerçada no dizimismo que poderá sustentar o trabalho pastoral das igrejas evangélicas mais sérias como os luxos dos pastores das igrejas calcadas na teologia da prosperidade.


Todo esse preambulo foi para falar não do trabalho institucional dessa ou daquela igreja evangélica de grande porte (como por exemplo, a ação de solidariedade aos desabrigados das enchentes do sertão cearense) mas do chamado "trabalho de formiguinha" feito anônimamente por esse ou aquele evangélico longe dos holofotes da mídia.


Nesse parte para entender a fenomenologia desse trabalho não podemos deixar de pensar no conceito da micropolítica. Quando um eletricista evangélico de um bairro pobre escolhe um adolescente do seu quarteirão para ensinar-lhe os rudimentos do ofício de eletricista, esse senhor sem saber está fazendo trabalho social e está tendo uma atuação micropolítica.Quando um casal de evangélicos resolve se dedicar nas horas vagas a atender moradores de rua, fazendo-lhes a barba, cortando-lhes as unhas, dando-lhes banho, mesmo sem este casal ter posses ou o respaldo da cúpula da igreja, eles estão fazendo trabalho de assitência social.


Como sou anarquista, essa fenomenologia muito me interessa, pois o anarquismo busca cada vez mais a descentralização da sociedade em escala global e internacional, entendida como o "despoderamento" gradual das instituições, visando o "empoderamento" contínuo das pessoas.


Quando o eletricista do exemplo anterior, mesmo sendo de uma classe social de baixo poder aquisitivo resolve escolher um adolescente para ensinar-lhe o seu ofício ele está demonstrando o quanto é "poderoso".O quanto ele é sujeito, numa sociedade educada pelas instituições do poder que o quer reduzir a objeto.


A noção de igreja como "ecclesia"( comunidade) revela o princípio comunal de que se reveste.O pertencimento evangélico revela como os irmãos se solidarizam entre si e fora de seu círculo de relações - falo aqui não só do eletricista ou do casal que atende os moradores de rua, mais de iniciativas isoladas deste ou daquele pequeno grupo de resolve fazer uma benfeituria para uma família pobre, por exemplo. Ás vezes este trabalho poderá ser feito com intenções de proselitismo religioso e, às vezes, não, será apenas visando a solidariedade desinteressada.


Todo essa fenomenologia mostra a peculiaridade do pertencimento religioso dos setores populacionais evangélicos.