segunda-feira, 27 de abril de 2009

NOITE DE SÁBADO



NOITE DE SÁBADO
Noite de sábado.

Uma semana se passou.
Um ano se passou.
E tudo permanece igual: noite de sábado, sozinho.

Olho a programação de tv;
Vejo algum programa humorístico;
Escuto alguma estação de rádio;
Leio algum livro empoeirado ou mofado
nesse longo inverno chuvoso em que estamos.
Pois é Sábado e estou sozinho.

Os bares estão cheios.
As igrejas estão cheias.

E eu estou cheio dos bares e das igrejas
e por isso estou sozinho nesta noite de Sábado.

Tento me acompanhar das cartas de tarô

Tento me acompanhar das efemérides astrológicas
Tento maquinar sozinho alguma grande e sagrenta revolução pacífica
Tento maquinar um calendário de ações contra a poluidora sociedade do automóvel
Tento me acompanhar das pedras e dos monturos

É mais uma noite insone de Sábado.

sábado, 18 de abril de 2009

ETNOGRAFIA DE UM DISQUE AMIZADE GLS


Com este estudo pretendo analisar um Disque Amizade GLS da cidade de Fortaleza.No caso falo do serviço telefônico 3468 3000, criado para atender ao público de gays, lésbicas e simpatizantes da capital do Ceará.

A Etnografia foi criada originalmente para descrever povos e etnias indígenas e só mais tarde também foi utilizada para descrever os hábitos e códigos culturais de outras comunidades.

Descrever os hábitos, gestos, símbolos, ritos e mitos de uma comunidade exige que o pesquisador se disponha até ir ao seu locus de pesquisa.Mas e quando se trata de observar os hábitos e representações de uma comunidade de falantes como de uma sala de bate-papo gls telefônico? Aqui a tarefa pode se tornar temerária e difícil, pois uma coisa é o pesquisador ir até um ilê de candomblé ou uma igreja evangélica ou a sede de um coletivo de anarco-punks observar e registrar o que percebe nesse lugar.Mas quando se trata de uma comunidade fluida como é uma sala de bate-papo? Como observar regularidades e recorrências quando há cada cinco minutos a sala se preenche de novas pessoas e sem falar que essas pessoas podem assumir personalidades que não são as suas?

Qual a relevância de observar gays, lésbicas e bissexuais conversando num serviço telefônico? Esse estudo pode fornecer dados para pesquisadores em etnografia e psicologia social, pois ao dar ouvidos ao que esses indivíduos conversam somos confrontados com suas crenças e cosmovisões particulares.

No serviço não há só pessoas que ligam da cidade de Fortaleza, mas também usuários que ligam da região Metropolitana, de cidades mais afastadas como Juazeiro e eu já conversei com um rapaz que falava de Pernambuco.

A questão da identidade numa sala como essa é bem curiosa.Muitas pessoas usam nomes falsos e até criam personalidades postiças.Homens, originalmente másculos no seu cotidiano, na sala atendem pelo nome de "Pamela Skylab" e usam gíria do universo das drag-queens e das travestis.

Os objetivos de quem liga variam muito.Vai desde homens casados que ligam para marcar um encontro sexual e furtivo com outro usuário enquanto a esposa enfermeira foi dar um plantão até rapazes que ligam apenas para ouvir os amigos que participaram do show da Alanis Morisseti.

As representações que esses usuários tem da comunidade homossexual, assim como a cosmovisão gls é bem peculiar.Revela uma comunidade, um pertencimento populacional de hábitos culturais bem específicos.

Ao ouvir essas pessoas o pesquisador pode identificar o preconceito e a desigualdade social que também existe no universo ideológico da comunidade de homoafetivos.Várias vezes presenciei homens gays da Aldeota perguntando se havia gays do mesmo bairro na sala, pois segundo eles não queriam conversar com os gays das regiões mais pobres de Fortaleza.Isso se evidencia ou em afirmações explícitas ou em comentários jocosos sobre o que esses gays endinheirados denominam de 'bichas pão-com-ovo".

O preconceito e a elitização econômica também fica evidenciado quando se ouve os gays que foram para o show da Alanis Morisseti fazem questão de frisar o quanto gastaram no preço do ingresso, no consumo de bebidas e iguarias caras durante o show e no retorno para casa tarde da madrugada em carros caros e importados.

As representações desses indivíduos revelam porque a industria do entretenimento investe tanto nesses gays endinheirados e revela também a lucratividade de apostar nesse "nicho de mercado".

Certa vez foi interessante ouvir de uma drag-queen como ela compreende o relacionamento homossexual.Basta ver o filme americano "O segredo de brokeback mountain" pois lá há a explicação de como termina todo relacionamento entre gays: um morto e outro olhando para uma jaqueta.

O que se pode perceber nos usuários desse serviço é de que há um queixa comum:a da solidão.
E dá para se concluir o motivo, pois na pós-modernidade a tônica dos relacionamentos e dos vínculos é o esgarçamento, a superficialidade dos contatos.As pessoas vivem um paradoxo de não quererem fidelizar relações e ao mesmo tempo quererem estabilidade.Como posso ter estabilidade se não me fidelizo ou não me ligo profundamente a ninguém?

Uma coisa que merece menção é a participação lésbica na sala:pequena e contida.E outra menção é a grande quantidade de bissexuais que ligam para o serviço com intenções apenas de satisfazer genitalmente seus instintos sem maiores vínculos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

PORTAS FECHADAS E ENTRE-ABERTAS


Este será mais um poema vacilando entre a poesia e a prosa

Será mais um poema

que glosará

sobre as portas fechadas

que tenho encontrado pela vida.


E sobre algumas portas apenas entre-abertas.

Ás vezes até vejo casarões que poderiam me acolher

e que não me acolhem.

Fico do lado de fora,

batendo no seu portão,

vendo seu cadeado

e tomando sol ou chuva

porque já está cientificamente

comprovado

que sou mais um futuro desempregado

e sem poder de compra

mais um

e nada mais


Fortaleza e seus joguinhos de cartas marcadas.

Seus concursos públicos cheios de bastidores privados.

Não faço parte de nenhuma máfia

e por isso fico endividado.


sábado, 31 de janeiro de 2009

PÓS-MODERNIDADE E ENSIMESMAMENTO


Este texto surge de uma constatação: o ensimesmamento é a tônica dos habitantes de Fortaleza.


Cada vez menos há lugar em Fortaleza para uma boa conversa.Há cada vez menos lugares com pessoas interessantes para se conhecer.


Nas praças públicas do Centro da cidade, o movimento de pessoas diminuiu bastante, principalmente depois das 20 horas. Para onde vão os transeuntes das praças? Para os bares onde não se pode conversar, devido à música barulhenta ou será que os transeuntes nem saíram de casa com medo de assaltos e estão na solidão de seus condomínios fechados?


As pessoas estão trancadas ou se trancando, ensimesmadas nos seus mundinhos fechados, sem lugar para partilhar uma conversa que dure mais de 10 minutos.

domingo, 18 de janeiro de 2009

FINAL DE TARDE NUM BAR DECADENTE EM FORTALEZA


Impressões ligeiras e fragmentadas sobre o bairro da Jacarecanga, ontem no final da tarde, na padre mororó, após reunião do Crítica Radical.

Fiquei na esquina da Padre Mororó com alguns conhecidos do Crítica Radical numa mesa de bar.Fiquei meio contemplativo, meio blasé, enquanto os outros comentavam coisas do seus cotidianos e sem estarem muito interessados de que eu me inserisse em suas vidas mais íntimas.

Então fiquei bebericando uma brahma- apesar da negação do meu médico - ouvindo o Julio Iglesias que tocava e vendo a decadência dos bares da esquina em questão.

O bairro ja foi bem glamurizado e hoje tem aqueles casarões da década de 30 e 40 todos ou quase todos detonados, alguns viraram mocós de sem-teto, de moradores de rua, de pessoas não muito recomendáveis.

E fiquei ouvindo o Julio Iglesias que tocava e tentando me conectar a alguma temporalidade qualquer...No fluxo da conversa citaram o final da mini-série da Maysa da Globo, porque aludiram e evocaram o nome de uma amiga deles que, segundo eles, quando bêbada tem os mesmos "bonecos" e inconveniências da Maysa...Nesse momento eu voltei para o planeta Terra das pessoas comuns que em vez de ficarem olhando para arquitetura detonada de ruas de bairros que um dia tiveram glamour, resolve conversar sobre coisas cotidianas como brigas de marido e mulher, sobrinho que engravidou fulana, contas de luz, gás e telefone...

...e lá estava eu dando as minhas impressões sobre a música da Maysa que acho muito pra baixo e cafona.E sem ver nem para quê comecei a lembrar do teatro, dos romances e das crônicas de Nelson Rodrigues.Sim! Nelson Rodrigues.Suas mulheres nervosas, seus homens tarados e todo o seu carioquismo tem muito a ver com a década de 60 que pinto na memória que imagino dessa época, sem nunca na verdade ter vivido nela, posto que nasci em 1972 quando a tropicália já dava sinais de morte.

No final da rua tem o cemitério São João Batista onde estão enterrados escritores muito conheciodos da cidade, como o, dizem, racista, Quintino Cunha.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

DE TREM PRA MARACANAÚ


Hoje estava assistindo o Jornal do Meio Dia
e vi uma notícia que o Projovem do Governo Federal
estava precisando de professores para o municípios do Interior.

E aí, como talvez vá ficar desempregado logo logo, lá fui eu numa aventura
por trem até o município da região metropolitana de Maracanaú.

Essa crônica pretende narrar como foi meu percurso dentro do trem sucateado.
Peguei o trem na estação do Couto Fernandes em frente ao Incra em Fortaleza
e na estação ninguém sabia com certeza
onde ficava a sede da prefeitura
ou da secretaria de educação de Maracanaú,
o que revela o quanto o povo está distante dos gestores públicos.

Dentro do trem sucateado, caindo aos pedaços, fedorento
fui ao lado de um senhor queixoso quanto ao Metrofor
e num mecanismo de memória involuntária proustiana
eu fiquei me lembrando de quando ainda no ano de 1986
eu pegava o trem para ir para o quartel da Polícia Militar
onde eu tentava treinar para tornar-me um infanto
desses que ficava o dia todo em pé
sem ganhar um centavo
em lojas olhando os menores que queriam roubar algo.

Cada traseunte exibia o seu semblante de sofrimeto
e salário baixo
As árvores que passavam agitadas
na janela me acenava essa Fortaleza mais selvagem,
mais rural da zona sul e suburbana pros lados da Messejana

uma região verde e que ainda não foi muito surripiada
pela especulação imobiliária

À medida que se aproximava do município de Maracanaú
percebia que a arborização de mata ciliar
ia rareando na janela do trem
anunciando que o município polúido e industrial estava próximo


Uma pichação no trem ao lado exibia a palavra "kaos" em letras róseas
achei estranho e bonito
um kaos roseo.
E sei lá comecei a Pauloleminskalizar a paisagem.

Fiquei lembrando que o primeiro cartaz do Movimento Punk de Fortaleza
eu vi nesse trem para o Maracanaú
na volta do Conjunto Esperança
e do tal quartel da Polícia
em que eu adolescente
aprendia a ser macho e homem de respeito.

Hoje os punnks mais velhos, os que estão vivos e não morreram de droga
ou de morte violenta,
são pais de família poucos escolarizados que escutam discos arrannhados
do Clash, Sex Pistols ou Ramones ou donas de casa ocupadas em ler a Bíblia pra filha que se converteu.

Os mais jovens não querem muito papo comigo
porque me acham muito acadêmico.



Na volta - não consegui o emprego coisa nenhuma
outras memórias vieram involuntariamente, dessa vez
lembrava-me das cenas de trem
do filme em que Leonardo de Caprio
faz Rimbaud e namora com Verlaine.
Os europeus sentem uma presença muito maior do trem
no cotidiano do que nós cearenses.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

FRACASSO


Ouvindo o cd "Cores, Nomes" de Caetano Veloso


Minha escritura do fracasso tem me incomodado
meu pessimismo agônico
não sei se conseguirei emprego
fazer bicos
e os fazendo não sei se terei habilidade para pagar minhas contas
com pouco dinheiro
Fico pensando em Pessoa que só não passou fome
porque sabia inglês e traduiza coisas para escritórios de contabilidade
na pedregosa Lisboa.
Penso em Mallarmé que jamais seria best-seller com sua poeisa hermética
e cifrada
e só não passou fome
porque sabia inglês
e dava aula particulares
para os filhos de comerciantes endinheirados
na enevoada e suja Paris do século XIX

Só me interesso pelo que não de dá dinheiro:
cinema, literatura
Só um fracasso como professor de meninos em situação de risco
Só um tradutor ruim e não juramentado
Sou um fracassado social
e ando pé
porque meu Passecard não terá crédito após a demissão
Sou um futuro desempregado
e olho o céu como tampa
e essa imagem atesta o meu fracasso
e minha falta de critividade
porque já vi em outro fracassado do passado: um Baudelaire.