quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

UM HOMEM LIVRE


UM HOMEM LIVRE
Charles Odevan Xavier


"A minha liberdade começa quando a sua se expande"
Mikhail Bakunin, anarquista russo

Sou um homem livre
sentindo esse vento suave
bater na minha fronte
à beira do mar azul.

Sou um homem livre
contemplando o Monte Sinai
onde Moisés se conectou
com o Criador
ou andando alegremente
pelas ruas festivas de Salvador.

Sou um homem livre
porque tenho um amigo policial
e outro sindicalista em greve.
Pois sei o idioma de ambos.

Sou um homem livre
porque almoço na casa de um pentecostal
- velho conhecido de longas eras
e tomo um cafezinho na
bodega do pai de santo.

Sou um homem livre
porque li a Torah com o rabino,
o Alcoorão com o sheik
e as Sutras com o monge budista.

Sou um homem livre
porque li a carta-magna do país
e li a teoria anarquista.

Sou um homem livre
porque quero todos livres
para andarem e visitarem
quem quiserem.

Amo a liberdade
pedindo apenas ao governo oculto
que me ilumine os caminhos que percorro.

LIVRO DE LÁZARO


LIVRO DE LÁZARO

É muito díficil conviver nivelado por baixo, sem renda, mendigo em andrajos.

E mendigo medito sobre o sestro maldito de um omulu ressentido.

Fiapos de conversa, súplica, pedido. O mendigo herdará prédios escolares falidos.

Conversas, acordos que não se cumprem, fecham, atualizam. Termos rasurados num cotidiano insípido.

O mendigo camoniano vai para a faculdade com um pão dormido e uma xícara de café até a fome da ralé.

O mendigo é inoxidável, de ferro curtido, seguro, obstinado e orgulho ferido.

SOLOS PARA CORPOS SÓLIDOS


SOLO PARA CORPOS SÓLIDOS

Este texto pretende analisar os dois solos apresentados no Mês de Fevereiro, no Projeto Quinta com Dança do Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

O solo "Cabeças.com" foi coreografado e executador por João Carlos Rodrigues e o solo "17 pontos", coreografado e executado por Andrea Sales.

Eu, particularmente, não gosto em artes cências de solos ou monólogos. Aliás, se formos insistir no cânone dramatúrgico: 'drama' é ação, conflito. Logo pede dois personagens, no mínimo. Fica difícl imaginar um conflito sendo perpetrado por um único ator (ou no caso, bailarino). Ou seja, o conflito, a querela pede duas vozes (ou dois corpos) em disputa. O monólogo (ou o solo) é um discurso único, ou uma única voz, a ruminar ou regurgitar-se auto-referencialmente.

Dessa forma, em dança, tenho preferência por grandes elencos, tipo os espetáculos da Síliva Moura ou do balé Edisca.

Entretanto, sou obrigado a reconhecer que em tempos de vacas magras e retração econômica, fica difícil uma companhia de dança pagar as pautas dos teatros sem parceiros peso-pesados ou gordos patrocínios. Deste modo, pôr vinte pessoas num palco como Sílvia Moura gosta de fazer, é inviável economicamente.Ainda que seja belo cenograficamente.

Também sou obrigado a reconhecer a força expressiva dos solos apresentados por João Carlos Rodrigues e Andrea Sales.

Em "Cabeças.com", os movimentos de João Carlos Rodrigues evocam aqueles tiques nervosos que nós extravasamos no silêncio solitário de nossos quartos à noite. O solo oscila entre um repertório de gestos cotidianos comuns, banais a rompantes bruscos e convulsivos de quem passa por sofrimentos psicológicos intensos.

As camadas sonoras da sonoplastia e as camadas de luzes criam uma atmosfera angustiante, cujo ápice dramático é o momento em que o personagem de João Carlos Rodrigues, assoberbado por conflitos psíquicos, esconde-se debaixo da cama.

João Carlos Rodrigues, embora estreante, exibe um controle rigoroso e preciso do corpo. Um corpo talhado em muitas horas de dança, necessário às oscilações do personagem entre a leveza e as convulsões. Um retrato desse homem pós-moderno, assoberbado por um terrível estresse emocional e físico e pelas angústias de uma crise civilizacional - que é distante enquanto se trata de o World Trade Center desabando repetidas vezes nos canais de televisão e que passa a ser próxima no primeiro assalto ao sair de casa para trabalhar de madrugada ou na primeira pedrada que levou no ônibus de volta do trabalho pela torcida organizada inimiga, em dia de clássico no Castelão.

Em "17 pontos" de Andrea Sales vemos a tradução deste homem contemporãneo estressado no corpo feminino. A bailarina busca no estudo sobre os apoios e alavancas do corpo figurar a mulher contemporãnea oscilante entre as solicitações feminis e a brutalização pedida pela sociedade pós-industrial, que requer corpos sólidos, eficientes, robóticos da cadeia produtiva toyotista.

Como o homem ou a mulher não são os andróides exigidos pelos "ISO9000", Re-engenharias e Qualidades Totais do cotidiano instrumental da sociedade capitalista atual, sobra angústia, perplexidade e desespero. Tudo coberto por camadas de luz e som melancólicos. Contudo, há momentos de otimismo como na pasagem em que delicadas texturas da música "Pagan Poetry" da cantora islandesa Björk sugerem uma humanização dos andróides criados pela mundialização do capital. Ou seja, talvez se o homem resgatar o que foi no período paleolítico, antes da descoberta da agricultura, propriedade privada e escravidão, evocado pela letra de Björk, ainda haja alguma esperança para a espécie humana.

Charles Odevan Xavier
Mestrando em Letras pela UFC.

QUESTÕES SADIANAS


QUESTÕES SADIANAS
Charles Odevan Xavier

"O mundo existe para me proporcionar 24 horas de prazer e gozo"
Marquês de Sade

A epígrafe deste texto resume toda a filosofia de Marquês de Sade. O escritor francês produziu uma obra controvertida, polêmica e polissêmica, que motivou as interpretações mais diversas. Uns vêem na obra um libelo anticlerical e anárquico, outros pensam o contrário: uma obra em que o liberalismo burguês não consegue esconder uma certa contrição ultra-católica.

Sade precede Stirner no seu individualismo libertino. O mundo que Sade pretende erguer seria uma sociedade de indivíduos livres e libidinosos completamente embriagados pela luxúria sexual e pela gula mais desregrada.De uma certa forma, Sade precede o "além-homem" de Nietzsche.

Quem suportaria uma nação, um continente repleto de homens que querem gozar initerruptamente? Como ficaria o abastecimento? Quem trabalharia, enquanto esses libidinosos experimentam as saliências e reentrâncias pulsantes e latejantes de seus corpos? E quem seriam esses eleitos? Os pobres e miseráveis também poderiam se entregar a lassidão dessa república de prazeres? Ou seria uma cruel e insana tirania a mais a violentar corpos de crianças, alimentando irrefreávies pesadelos pedófilos?

Durkheim e sua teoria das sanções ajuda-nos a entender o porquê dos indivíduos,sob o pesado braço do estado, não poderem dar vazão aos apetites e instintos mais animalescos.

Vivemos em uma sociedade de controle deleuziano alicerçada num pirãmide foucaultiana de olhares. Assim, retomando a utopia totalitária de Orwell, todos vigiam a todos. O pai libidinoso é vigiado pela filha da Legião de Maria. O professor anarquista é denunciado à coordenação da escola católica pelo aluno escoteiro.

O estado de direito é a Lei em que todos os crimes possíveis e imaginários estão prescritos. Como uma imensa rede, a Lei existe para prender e enganchar a todos os desejantes e libertinos. Contra o prazer conjuram juntos o Tribunal, a Prisão e a Religião.

Sade é um território perigoso e fascinante.Tanto que Raoul Vaneigem disse que Sade foi, ao mesmo tempo, o último senhor e um dos primeiros a bradar contra a dominação total do homem.

RETRATO DE MÁRIO BARATTA


RETRATO DE MÁRIO BARATTA

Este estudo pretende analisar a obra "Arte Ceará: Mário Baratta: o líder da renovação ", organizada por Nilo de Brito Firmeza, também conhecido por Estrigas e publicado pelo Museu do Ceará e Secretaria de Cultura do Estado do Ceará em 2004, dentro da Coleção Outras Histórias, coordenada pelo Professor Dr. Francisco Régis Lopes Ramos.

Mário Baratta, nascido em Vila Isabel no Rio de Janeiro em 1914, vem para Fortaleza em 1932. Foi funcionário do IBGE e desenhista técnico do DNOCS. Trabalhou em ampliação fotográfica e já como estudante da Faculdade de Direito, projetou painel e obelisco da mesma faculdade.

No meio do caminho esbarra com os quase anônimos pintores do Ceará. Passa a ser o aglutinador dos artistas plásticos locais e em 1941 surgem os primeiros salões de pintura, em torno das atividades do CCBA (Centro Cultural de Belas Artes).

No CCBA se revelam talentos de projeção futura como Antonio Bnadeira (1922 - 1967), Aldemir Martins (1922) e retiram do ostracismo o consagrado Raimundo Cela (1890 - 1954). Mário Baratta é um dos responsa´veis por estas revelações ou resgates, quando convence os pais de Antonio Bandeira e Aldemir Martins a financiar o talento deles ou quando entusiasma o velho mestre dos retratos de jangadeiros a participar do Salão Nacional de São Paulo, onde acabaria ganhando uma medalha de ouro.

Em 1943 surge o Salão de Abril criado pela UEE ( União Estadual dos Estudantes), que serviria de alicerce para a fundação da SCAP (Sociedade Cearense de Artes Plásticas) em 1944; a qual teria muita afinidade com o grupo CLÃ, aproximando artistas-plásticos e escritores cearenses.

Mario Baratta conciliará o escritório de advocacia com os ateliês de pintura alugados no mesmo edifício. Terá ainda tempo para pesquisas arqueológicas no interior do Ceará, do Rio Grande do Norte e o magistério como professor da Faculdade de Direito.

A obra "Arte Ceará: Mário Baratta: o líder da renovação" esmiuça a participação política e artística do advogado carioca nos bastidores das artes-plásticas cearenses; assim como, exibe uma coletânia de textos do ex-desenhista do DNOCS, publicados nos Jornais locais ( O Estado, Correio do Ceará, Unitário, O Povo) e nas revistas CLÃ e Revista da Sociedade Cearense de Geografia e História de 1945 a 1979.

Nos textos curtos e concisos exigidos pela magreza típica dos cadernos culturais dos jornais locais, Mário Baratta revelar-se-á um arguto comentarista da plasticidade produzida em Fortaleza e nas feiras do Cariri; como também um culto leitor de revistas americanas e inglesas de pintura encomendadas ao livreiro Edésio.

O leitor perceberá que a crítica de Mário Baratta dialoga com o Mário de Andrade de "O Baile das Quatro Artes", procurando sempre vislumbrar nas obras contempladas a , o artesanato, de onde talvez se revele o apuro acadêmico de quem foi desenhista técnico do DNOCS, ao lado de uma preocupação com a gestualidade pictórica, traduzida pelo seu respeito pela arte abstrata.

Mário Baratta, atento espectador de sua época e espaço, professará uma arte engajada sem ser panfletária e regional sem apelar para o folclórico. Em suma, um modernista atento às solicitações figurativas da "Guernica" do pintor Pablo Picasso ou das solicitações estéticas dos canaviais de José Lins do Rêgo.

O livro de Estrigas é uma obra muito interessante e bem coligida, em que o pintor e museólogo deu-se ao trabalho de vasculhar jornais embolorados pelas péssimas condições de conservação dos arquivos públicos locais. No entanto, há um único defeito no livro editado pelo Museu do Ceará: o de não ter ilustrações, o que obriga o leitor a trabalhar no campo da pura especulação, algo não muito prático em se tratando de livros que, a rigor, comentam quadros e esculturas.

Charles Odevan Xavier
Mestrando em Letras pela UFC.
charlesodevan@yahoo.com.br

NORDESTINOS TALHADOS EM MADEIRA E BARRO


NORDESTINOS TALHADOS EM MADEIRA E BARRO

Charles Odevan Xavier

Este estudo pretende analisar a exposição "Mestres do Artesanato Nordestino" que está em cartaz no Centro Cultural Banco do Nordeste no período de 01 de Fevereiro a 30 de Abril de 2005.

A exposição tem curadoria e textos de Jacqueline Medeiros.

Este estudo parte de um esforço de minha parte, no sentido da elaboração do que venho nomeando de "Teoria da Plasticidade Nordestina", a qual se instaura no diálogo com a obra do sociólogo francês Pierre Francastel ("A Realidade Figurativa" - 2ª edição. São Paulo:Editora Perspectiva, 1993) e a obra do Jornalista e Professor cearense Gilmar de Carvalho - particularmente com os livros "Mestres Santeiros: Retábulos do Ceará" - Fortaleza : Museu do Ceará: Secretaria da Cultura do Estado Ceará, 2004 e "Xilogravura: doze escritos na madeira" - Fortaleza : Museu do Ceará : Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2001. Ambas as obras mencionadas fazem parte da Coleção Outras Histórias, coordenada pelo Professor do Curso de História da Universidade Federal do Ceará Francisco Régis Lopes.

Toda crítica de arte pressupõe o estabelecimento de critérios de aferição da obra examinada e sua relação com as demais da exposição em que está inserida; o diálogo e/ou confronto com o cânone e a tradição acadêmica ou popular tomada em questão.

A exposição é de artesanato e não do que a academia chamou de belas artes. Portanto, é dentro desse território epistemológico, que o mercado editorial de artes convencionou chamar de artes aplicadas ( arquitetura, "design", mobiliário, vestuário, decoração, gastronomia etc.) que devemos considerar as realizações da Família Candido, residente na casa da rua Boa Vista, n° 49, em Juazeiro do Norte - Ceará (a fértil e abençoada região do Cariri) e o seu repertório modelado em barro cozido e inspirado na cultura nordestina: bandas de música, reisados, lapinhas, presépios, romarias, quadrilhas e fases da vida de Pe. Cícero, para citar alguns.

Que tipo de modelos estéticos são postos pelos filhos do mestre Seu Américo em Fazenda Nova - Ceará, quando empregam instrumentos de trabalho como faca, estilete usado para os detalhes de acabamento, tábua de madeira e as mãos firmes e agéis?

Que elementos afetivos e simbólicos estão em jogo, quando a matriarca Dona Maria de Lourdes junto com as filhas sentam no terreiro da casa, como se brincassem feito criança e em jorros de criatividade inventam outros materiais ou reutilizam o que se encontra no seu cotidiano, como os índios cariris feitos de cerâmica que possuem adornos de palha e pena de capote encontrados no munturo do quintal.

A exposição apresenta duas categorias de artistas populares: os consagrados e os anônimos.

Deste modo, vemos uma intencionalidade racionada no rigor geométrico construtivista das esculturas do cearense Zenon Barreto, feitas com materiais ordinários do cotidiano sertanejo: os estribos pretos oxidados e imprestáveis para a cavalaria, precisamente montados, formando composições equilibradas; os chocalhos pretos enferrujados em lances alternados; os pares de lamparinas de flandre estanhado.

Também o "Dom Quixote", feito de sucata de ferro automobilístico pintado de preto pelo cearense Zé Pinto com nítidos traços cubistas e estilizados ou o "Gari" esculpido em ferro comum do potiguar Dimauri, revelam uma seriedade serialista que em nada lembram as vibrantes miniaturas de papelão do cearense Willi de Carvalho, representando carrosséis de parques de diversões com fitas e bandeirinhas coloridas de São João ou as quermesses nas praças dos vilarejos interioranos com seus carros de boi.

O elemento religioso se faz presente na escultura de barro "Artesão encenando (sic) ao menino Jesus o ofício de carpinteiro" do pernambucano Antonio José da Silva; na qual aparece um carpinteiro de cabelos lisos com serrote fazendo tamborete e um menino Jesus com um martelo na mão e traços europeus. O panejamento das roupas medievais, a precisão dos traços e a cor marrom fazem a obra parecer de madeira.

Também no "São Francisco" em barro cozido do pernambucano Geminário André da Silva, em que o panejamento do manto e a graciosiade dos pombos sobre seu corpo dão a ilusão da obra também ter sido feita em madeira.

Assim como o "Santuário" em madeira serrada feito pelos artesãos cearenses da Associação Padre Cícero que dosa uma urdidura mourisca, a imponência gótica de suas torres apontadas para o céu e o excesso barrôco do seu verniz. Ou ainda a surpreendente "Nossa Senhora Coração de Maria" esculpida em madeira pelo cearense Expedito B. S., que pintou a santa de uma forma patinada que lembra o bronze.

Entretanto, os artistas populares dentro da diversidade étnica da cultura nordestina, podem mostrar olhares menos devotos sobre os temas e figuras caros ao cristianismo medieval dos santinhos expeditos distribuídos nas novenas feitos em gráficas rápidas ou "lan houses", em sua feição ibérica; como uma "santa ceia" esculpida em relêvo na madeira, cujo os rostos dos apóstolos evocam máscaras africanas ( a obra não tinha legenda, por isso não posso informar ao leitor dados como o título, o autor nem a procedência). Ou os simpáticos "Anjos Cangaceiros" feitos em barro cozido pelo pernambucano José do Carmo. Nos quais vemos um anjo com atabaque, um Corisco alado com viola e um Virgulino alado com acordeão de oito baixos.

Outro percurso temático da exposição, no dizer da semiótica greimasiana, é o dos ofícios populares. Desde o caçador sertanejo esculpido em madeira pelo alagoano Mestre Camilo. O qual apresenta um vestuário típico com chapéu e chinelos de couro, pitando um cigarro de palha, com uma espingarda do lado e um "veado" morto empendurrado no ombro; tem traços caboclos (mestiço de ameríndio e caucasiano); aquele cansaço e desolamento característico do sol do semi-árido que envelhece os trabalhadores rurais antes do tempo.

A "Florista" feita em estôpa pela paraibana Espedita da Costa Medeiros; o "Tocador de flauta" feito em cerâmica por um artesão cearense desconhecido ou a "Rendeira" velha fumando cachimbo e sentada com uma almofada de bilro feita em barro cozido por um artesão desconhecido do Rio Grande do Norte e a diversidade de materiais e técnicas empregados sugere às autoridades competentes das inúmeras possibilidades de geração de emprego e renda, num contexto geográfico marcado pela sazonalidade das chuvas, por técnicas agropecuárias predatórias e pelo advento da lucrativa indústria do lazer e do entretenimento - vide Hollywood - na era da Informação.

Se os orgãos governamentais - de economia mista - e a iniciativa privada se juntassem e discutissem com seriedade e responsabilidade pública; cenas esculpidas em barro cru pelo sergipano José Freitas ("Retirantes") onde meninos negros, buchudos, raquíticos e de pés-descalços carregam balaios, cestos de palha, lenha e potes desfigurados (pés e mãos enormes e grotescas)pelo cansaço e fome, seriam apenas uma deformação estética de fundo estilístico e não o que são na dura realidade nordestina: um caso de polícia.

A quantidade de vezes em que intrumentos musicais são apresentados na exposição das mais diversas formas - matracas de madeira do maranhense Pedro Piauí; a banda cabaçal talhada em madeira colorida pelo cearense Diomar da Associação Padre Cícero sugerem que essa poderia ser a saída para a geração de emprego na região, através do incentivo às bandas e fanfarras municipais, no aperfeiçoamento de maestros e regentes mais experientes e a formação continuada de músicos aprendizes. Seria muito bom que as políticas públicas de cultura contassem com a parceria da milionária indústria fonográfica.

Se vivêssemos num país sério, artistas como a alagoana Rita Aparecida Rosendo poderia continuar talhando em madeira seus gatos do mato - que de tão bem feitos - só faltam avançar na jugular de quem se abaixa para vê-los na vitrine. Ela receberia uma bolsa de algum CDL para aperfeiçoar e ensinar o que sabe para os adolescentes do seu quarteirão no ateliê comprado pelas milionárias e predatórias madeireiras do Pará.

O terceiro milênio apresenta um desafio para as universidades públicas ou particulares: como aproveitar o tempo livre compulsório do desemprego estrutural e os humores incostantes da economia informal e do sub-emprego?

Mestrando em Letras pela UFC.

SOBRE DEUS


SOBRE DEUS

"A crença em Deus e no Diabo, por mais bizarra que seja, faz desses dois fantasmas uma realidade viva logo que uma coletividade os julga presentes o suficiente para inspirar os textos de suas leis"
Raoul Vaneigem

Este texto pretende ser uma livre reflexão sobre a divindade. Tão livre e racional que poderá chocar um ou outro cristão, mais acostumado em sentir deus, do que propriamente pensá-lo.

Deus é um desses fenômenos curiosos de que se ocupam os humanos. É interessante perceber que algo que não ocupa lugar no espaço - portanto, não tem largura, altura ou comprimento e o que não tem medidas não existe; é o que diria qualquer terceiranista de Física - ocupa a mente e o coração das pessoas.

Alguns dizem que Deus é um só, entretanto cada povo deu uma versão diferente de Deus. A versão bíblica é a mais mesquinha de todas: um Deus rancoroso, vingativo, machista, racista, misógino e homofóbico. A versão do povo iorubano da África talvez seja a mais generosa de todas:Um Deus representado pela chuva que molha o campo e traz caça e pesca para todos.

Não diria que Deus existe ou não, porque a partir do momento em que problematizo Deus e sua existência, ele automaticamente passa a existir, ainda que não exista de fato.

Deus é uma abstração.Talvez por isso, Platão o tenha colocado ao lado dos logaritmos e das formas geométricas puras de um suposto mundo das idéias. O mundo das idéias platônico também não ocupa lugar no espaço e, no entanto, está na cabeça de qualquer matemático, engenheiro ou arquiteto.Assim à alegoria desse mundo desterritorializado corresponde a idéia de Deus.

No romance "O perfume" de Patrick Süskind, o protagonista (um assasino serial) por uma deficiência cerebral tem uma dificuldade enorme de entender abstrações; ele só entende o que tem cheiro. Assim, Deus, bem, mal, certo, errado são sem significado pra ele e isso justifica os seus crimes.

Isto traz uma boa divagação pra nós. Se Deus é inodoro, invisível e intangível, contudo isso não é o suficiente para que digamos ser Deus uma imensa alucinação coletiva. Estado, Nazismo e Amor também são inodoros e quem ousaria dizer serem as três coisas citadas alucinações?

No meio anarquista de que faço parte, não é muito inteligente acreditar em Deus. Deus seria, ao lado de conceitos como Pátria, propriedade, uma grande mistificação ou superstição, que tem sido usada para escravizar as pessoas.

Realmente o Deus pessoal da Bíblia foi usado para massacrar indígenas, escravizar africanos, espoliar judeus e árabes, perseguir homossexuais, queimar cientistas e bruxas na Idade Média. Assim, a história da igreja é uma história de crimes e atrocidades.

Mas se Deus existir e estiver acima das conveniências e interesses de humanos poderosos? Carl Sagan, astrofísico, respondeu a um repórter sobre sua opinião em relação a existência ou não de Deus: "Bem...Se você chama Deus uma força que garante o equilíbrio cósmico.Sim, eu acredito em Deus. Mas emocionalmente isso é nulo, pois ninguém rezaria para a lei da gravidade".O interessante é que os hindus intuiram isso há cinco mil anos, quando conceberam o ser supremo no frio e impassível Brahman.

Assim, Deus existiria, mais estaria mais próximo do "relojoeiro" que concebeu um universo que funciona sozinho e sem a sua constante intervenção, do que ser um suposto poder executivo de uma "sociedade bem policiada" que partiria de um centro que a Astrofísica já demonstrou não existir.

E pra finalizar. Seria Deus uma consciência internalizada do certo e do errado que surge em momentos de dúvida, como uma espécie de repositório onde a cultura depositou tudo o que deve ser feito e tudo o que deve ser evitado? Mas não seria isso que Freud batizou de "Superego"?