sábado, 26 de fevereiro de 2011

FIGURAÇÃO E IDENTIDADES PÓS-MODERNAS NO "ESTORVO" DE CHICO BUARQUE



FIGURAÇÃO E IDENTIDADES PÓS-MODERNAS NO "ESTORVO" DE CHICO BUARQUE

Charles Odevan Xavier

A figuração ou representação artísitca é uma forma de apreensão da realidade.E toda apreensão pressupõe intelecção, seleção ou redução do material capturado no real que circunda o artista.

Figurar é recortar um estrato da realidade e traduzi-lo em signo.

Muitos foram as concepções de representação artística na história da humanidade.

Para Sócrates, a arte idealizaria o objeto representado; enquanto para o seu discípulo Platão, a arte simularia o objeto, simularia o real.

Aristóteles, dissonante de ambos, dirá que a Arte nem duplica e nem copia o real, o objeto.Ela procura o essencial.Não é, portanto nem completamente verdadeira nem cabal ilusão.Ela busca o verossímel.

Na Renascença, com a apoteose matemática de Giordano Bruno e Galileu Galilei, Leonardo da Vinci entenderá a representação artística como meio de analisar a Natureza e de traduzi-la e linguagem matemática.Deste modo, a arte perde o caráter servil que tinha na Idade Média e passa a ter um 'status' paralelo à Ciência e à Filosofia.Assim, a Pintura ganha uma dignidade teórica.

Diderot verá na Arte simultaneamente uma reprodução de fatos comuns com a escolha dos excepcionais e os traços exteriores da Natureza com aqueles que a fantasia inventa.

Segundo Diderot, enquanto que na Ciência, a verdade é sempre geral, reduzindo a realidade a determinadas formas abstratas, nas quais se dissolvem os aspectos singularews dos fenômenos; na Arte,por sua vez, há predominância tanto do individual como o do sensível.Diante de uma representação artística não nos interessa saber se o objeto representado existe ou não, mas se o artista, repeitando as leis da Natureza, o tornou possível.

A partir de Kant, em vez de se especular acerca da natureza das coisas, dos fins morais da conduta e da essência do Belo, ou seja, de se buscar a ontologia das coisas; o estudioso deve esquecer Deus, finalidade e contemplar os objetos independente de sua existência ou não.Deste modo, a experiência estética, possui valor autônomo, independendo de qualquer finalidade exterior; é um fim em si mesma.

Para Imanuell Kant, a representação artistica sugere e veicula o real.

Em Schiller, a representação artística enfeita e configura o objeto, o real, o mundo. Ou seja, o jogo estético é um ornamento, não está na esfera das necessidades naturais da vida e independe dos interesses práticos.

Para Hegel, a arte pertence juntamene com a Religião e a Filosofia, ao domínio do Espírito Absoluto.

A partir do voluntarismo de Schompenhauer e Nietzsche, a premissa mimética da Arte e seu compromisso com a Razão será dinamitada por uma suspeita contra o totalitarismo da racionalidade ocidental.Assim, somos levados ao lado sombrio e irracional da Moderniadade.

Nietzsche criará dois impulsos para a apreensão da realiade: o dionisíaco e o apolíneo. O primeiro descrito como a inclinação do ser humando para o êxtase, a embriaguez, o transbordamento emocional e o segundo descrito como a inclinação à contemplação e sobriedade.

Henri Bergson a partir da trilha aberta por Schompenhauer e Nietzsche, fará uma analogia entre o processo de conhecimento e da criação artística, pois ambos revelam a capacidade inerente do homem organizar a sua experiência por meio de símbolos, que são ao mesmo tempo, formas de sentir e conceber.

A expressão artística, segundo Benedetto Croce, não existe sem que os conteúdos de consciência, os estados sentimentais ou emotivos experimentados, as vivências, enfim, se concretizem numa forma, termo final do processo de criação, quando as instuições convertem-se em imagens.

Depois desse preâmbulo, começamos a indagar sobre o modo de figuração pós-moderno e somos levados à década de 90 intuída na diegese de "Estorvo" de Chico Buarque.

Se a figuração da realidade assume matizes sombrios a partir do pessimismo schompenhaueriano e do niilismo nietzschiano, como se produto de uma ressaca dos anos de apologia à tecnociência e à racionalidade intrumentalizante do ser humano pelos pensadores iluministas e seus discípulos positivistas; cabe indagar se há alguma diferença entre a figuração moderna e figuração pós-moderna da realidade.

Quem figura tmabém se revela e se pronuncia no que figurou, assim, perguntamos também pela natureza, pela identidade do sujeito pós-moderno.

Vejamos as marcas pós-modernas descritas pelos estudiosos: fragmentação, superficialidade, perda da idéia de identidade una e estável, como resultado do deslocamento da subjetividade, resultando na descrença às metanarrativas e à unicidade subjetiva (Hall, in: Identidades culturais na Pós-modernidade).

Narrado em primeira pessoa, "Estorvo" revela a história de um indivíduo sem nome, sem direção, sem propósito e sem utopia numa cidade grande não-nomeada, ocorrida provalvelmente ans décadas de 80 e 90.

O livro é uma série de narrações descontínuas, desterritorializadas e circulares desse personagem amoral, frívolo e superficial sem demarcações claras de espaço e tempo, que perambula a esmo por uma cidade, movido apenas por instintos primários e com vínculos pessoais esgarçados.

O aleatório sempre presente no romance dá uma configuração onírica, perto do pesadelo à obra:

"Vou regulando a vista, e começo a achar que conheço aquele rosto de um tempo distante e ocnfuso. Ou senão cheguei dormindo ao olho mágio, e conheço aquele rosto de quando ele ainda pertencia ao sonho" p.11

A sensorialidade alucinada cria uma atmosfera nauseante:

"Recuo cautelosamente, andando no apartamento como dentro de água" p.12

A influência intersemiótica de outros códigos de linguagem levando a estetização do real:

"Assim ele me viu chegar, grudar o olho no buraco e tenta decifrá-lo, me viu fugir em câmera lenta" p.12

"para refrescar os ambientes, volto à sala com tonturas, e tenho a impressão de que ela está invertida" p.47

"(...)porém, mais tarde penduramos por toda a parte cortinas brancas, pretas, azuis, vermelhas e amarelas, substituindo o horizonte por um enorme painel abstrato." p.15

"Eu sempre achei que aquela arquitetura premiada preferia habitar outro espaço" p.15

"Fixo o olhar no muro, ouço a bola que pipoca no piso sintético(...) a voz do meu cunhado cada vez mais remota, e parece que estou sendo alçado aos poucos, como se se minha cadeira estivesse numa grua." p.116

"No meio do quarto, a cama de casal me apareceu como uma instalação insensata" p.59

Em "Estorvo" um certo interseccionismo temporal-espacial, cria uma cronologia confusa e paroxística, como no capítulo Dois em que o narrador-protagonista retorma ao sítio da família onde morara cinco anos antes, ao deitar-se na cama ele se obssedia com a presença de um estranho do outro lado do olho mágico o apartamento. Aí o leitor embaralha-se por não saber em que território exato se encontra o personagem: no sítio ou no apartamento?

CAPÍTULO 3

O rapaz negro grande, corpulento e gordo de sunga de borracha, vem empurrado pelos guardas, os pulsos algemadoss e o corpo curvado repete-se em outro capítulo mais a frente.

A obssessão paranóide do personagem lhe atormenta:

"Não adianta ficar aqui parado. Eu não posso me esconder eternamente de um homem que não sei quem é.Preciso saber se ele pretende continuar me perseguindo." p.51

OLHAR DE SUPERFÍCIE

O narrador passa pelas coisas com extrema indiferença e alienação, como se os fatos não guardassem em si significações profundas.Que desdobra-se na relação com o outro marcada pelo afastamento e pela indiferença.

"Pensei que ela fosse dizer 'tá satisfeito?', mas não diz mais nada, fica deitada de bruços, soluça com o corpo inteiro, e não sei o que fazer. Só posso olhar o corpo dela se deitando, o lado esquerdo bem mais que o direito e, olhando aquilo, de repente me vem um forte desejo. Eu mesmo não entendo esse desejo, é contra mim.É um contra-senso, pois se ela agora me chamasse, e com a boca molhada dissesse 'vem', ou 'sou tua', ou 'faz comigo o que der prazer', talvez eu não sentisse desejo algum." p.53

A FALTA DE PROPóSITO

"Paro no meio-fio e faço de conta que espero um táxi. Um táxi freia e eu saio andando com a mala, fingindo conferir a numeração dos edifícios.Dobro a esquina e tomo uma rua sem movimento; talvez um assaltante me livre da mala.Com o sono em dia e de banho tomado, poderia andar por aí até amanhã, sem compromisso. Mas um homem sem compromisso, como uma mala na mão, está comprometido com o destino da mala" p.53

A PERDA DE IDENTIDADE UNA E ESTÁVEL DO NARRADOR:

"Teria escolhido uma roupa adequada, se bem qeu ali haja gente de tudo que é jeito; jeito de banqueiro, jeito de playboy, de embaixador, de cantor, de adolescente, de arquiteto, de paisagista, de psicanalista, de bailarina, de atriz, de miliar, de estrangeiro, de colunista, de juiz, de filantropo, de ministro, de jogador, de construtor, de economista, de figurinista, de literato, de astrólogo, de fotógrafo, de cineasta, de político, e meu nome não estava na lista" p.53

"Meu cunhado me alcança com o amigo grisalho, a quem apresenta dizendo 'é esse'.O grisalho diz que é sempre assim, que toda família que se preze existe um porra-louca' p.57

CAPÍTULO 4

O narrador, escondido dentro de um closet, esbarra numa bolsa e, ao enfiar a mão, toca nas jóias da irmã.Num parágrafo ele diz que deixou as jóias no lugar que encontrou; no outro ele pega as jóias e deposita nos bolsos da calça.

CAPÍTULO 5

"Ando na relva para lá e para cá, e para qualquer lado que eu vá o morto me olha de frente, mesmo sem virar o rosto, parecendo um locutor de telejornal mudo." p.67

O narrador protagonista negocia as jóias da irmã que roubou no cap. 04 com o submundo do crime.

"Há um videogame parado na televisão, carros de fórmula 1 no grid de largala" p.72

"O céu amanhece encarnado, e vem por aí um sol rancoroso" p.75

VÍNCULOS PESSOAIS ESGARÇADOS

"Meu amigo bebia comigo nsa psicina, e àquela altura a sua conversa já não fluia. Acho que falava da litertura russa, mas não tenho certeza, pois as palavras saíam enroladas e se perderam. Mas a sua imagem me volta cada vez mais nítida; lá está a correntinha de ouro no pescoço, meio embaraçada, a pinta cabeluda logo abaixo do cotovelo, as costelas saltada no flanco feito um teclado, o calção branco com três listas verdes verticais. Só não consigo me lembrar dos pés do meu amigo. Vivíamos descalços, e não me ocorre ter olhado alguma vez aqueles pés. Nunca reparei se eram grandes ou bonitos. Não sei dizer se os pés do meu amigo eram enormes, como os dos professores de ginástica assasinado." p.76.

IMPRECISÂO

No cap.06 o leitor é informado que o professor de ginástica assasinado pelo miehê e um amigo poeta do narrador-protagonista não são a mesma pessoa.(p.76)

Já na p.77 e no páragrafo seguinte passar a ser a mesma pessoa através do recurso à imaginação, reminiscência.

"Imagino meu amigo recebendo rapazes no apartamento. Meu amigo no sofá da sala, tomando campari e dizendo poesia para os rapazes. Com os pés descalços no sofá, mas disfarçados entre as almofadas, meu amigo passando os cabelos por trás da orelha, e imagino algum rapaz se irritando com coisa toda. Meu amigo abrindo o álbum dos poetas franceses, e o rapaz se encolhendo no sofá.E enchendo-se de ódio, e sofrendo de um outro ódio por não entender que ódio cruzado é aquele que o domina, e que é feito de muita humilhação e que é dezprezo ao mesmo tempo. Imagino a poesiaq sendo interminável e o rapaz enlouquecendo, indo buscar uma corda no varal, ou uma faca na cozinha, mas daí pra frente já dá mais pra imaginar, porque o meu amigo nunca seria professor de ginástica" p.79.

O único índice textual que intersecciona o amigo poeta e o professor de ginástica num só personagem é a ideia-fixa que o narrador-protagonista tem pelos pés de ambos.

OLHAR DESARMADO QUE NADA ESPERA

Este olhar "abandona os combates". Nada espera, não distingue oposições e não crê em militância.

"E disse que eu devia fazer igual ao escritor russo que renunciou a tudo, que andava vestido de camponês, que cozinhava seu arroz, que abandonou suas terras e morreu numa estação de trem.Disse que eu também devia renunciar às terras, mesmo que pra isso tivesse de enfrentar minha família, que era outra bosta.Também eram bosta toda lei vigente e todos os governos; e o eu amigo começou a se inflamar na varanda, gritando frases, atirando pratos e cadeiras no pátio, num escárceu que acabou juntando o povo do sítio para ver. Ele gritava 'venham os camponeses' e os camponeses que vinham eram os jardineiros, o homem dos cavalos, o caseiro velho e sua mulher cozinheira, mais os filhos e filhas e genros e noras dessa gente, com as crianças de colo. Várias vezes o meu amigo gritou ' a terra é dos camponeses!' e aquele pessoal achou diferente". p.78

A RECUSA DE DAR SIGNIFICADO À EXPERIÊNCIA

"Dessa noite eu não me esqueço porque terminou na cidade, num apartamento de cobertura perto da praia, onde uns estudantes de antropologia comemoravam a formatura. Não conhecíamos ninguém, e não sei como fomos parar naquele lugar" p.78

FALTA DE PROJETO

"Penso que, quando o ruivo vender as jóias, o meu quinhão dê para vier o que, oito meses, um ano, talvez mais.Talvez dê para viajar, conhecer o Egito, ir para a Europa e andar no metrô onde as mulheres usam jóias.(...)Não me desagrada estar assim suspenso no tempo, contando os azulejos da psicina, chupando as mangas que o velho me trouxe" p.80

DESORIENTAÇÃO TEMPORAL

"Acordo sem saber se dormi pouco ou demais.É um meio de tarde, mas não sei de que dia" p.83

"Sei que passa um pouco do meio-dia porque o movimento dos carros é intenso por igual nos dois sentidos" p.99

CAPÍTULO 8

Quando o narrador-protagonista tenta deixar a mala de maconha (trocada pelas jóias da irmã) no apartamento do amigo, ao sair do lugar ele vê o negro gigante e gordo de sunga de borracha imitando onça vindo gingando na avenida no meio do engarrafamento, dirigindo-se ao edifício do amigo com um canivete na mão, que descascava uma laranja. O leitor pode perceber algo de familiar nesta cena e ela é antecessora da cena em que o mesmo negro gigange de sunga saí do apartamento algemad pela polícia. Só que no cap.03 ela é a conclusão de uma sequência que iniciou no Cap.08, ou seja, a enunciação dissolve e inverte a causalidade temporal.

Ensaísta e pesquisador.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

FORTALEZA DESEMPREGADA


Começo de 2011
Tenho 38 anos
Estou desempregado
no quintal da outra casa
toca uma música brega qualquer
a ansiedade por novos rumos
me devora
como um pedaço de rocambole da padaria próxima
que me custou 1.75
mexo na carteira e sobrou cinco centavos.
E a tal crise dos quarenta deve tá começando.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A NATUREZA SOBERANA


Da janela do meu quarto
O açude de Mazagão
resfria a casa rústica.
Bichinhos de inverno
nas paredes.
Sapos coacham ao longe.
Nas horas altas da noite
leio sobre revolução
enquanto o povo dorme
em casarões ou casebres
agasalhando sonhos burgueses.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A LISÉRGICA BANDA TAME IMPALA


Isso é uma prosa póetica sem a sisudez dos meus textos de crítica social.
Nele quero prestar tributo a banda australiana de rock psicodélico, TAME IMPALA.
O TAME IMPALA é uma banda de 2010 que assume sua veia lisérgica e riponga com rocks
etéricos, viajantes...ora leve ora forte e pesada.

Ao ouvilos sinto-me conectado ao universo e desligado do cotidiano, quase como se tivesse fumado uma droga.

Que banda maravilhosa!

sábado, 4 de setembro de 2010

Apesar do ateísmo
ainda jogo tarô
caiu a carta do afogado
e nada mais claro
para traduzir esse momento
de sufoco
e o meu cotidiano oco
sem amor e sem dinheiro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

NOVOS PROLETÁRIOS, TOYOTISMO E REBELIÃO


NOVOS PROLETÁRIOS, TOYOTISMO E REBELIÃO
Charles Odevan Xavier

Este ensaio parte, sobretudo, de duas obras: uma de Ricardo Antunes “Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho” – 3ª edição – São Paulo: Boitempo, 2000 e uma de Anselm Jappe “As aventuras da mercadoria; para uma nova crítica do valor” – Tradução: José Miranda Justo – Lisboa: Antígona, 2006; também lemos uma entrevista de István Mészáros; assim como, alguns artigos de Robert Kurz da versão online em português da Revista EXIT!

O propósito deste ensaio é refletir sobre a configuração do chamado novo proletariado, em face do avento do toyotismo e suas implicações para uma transformação ou ruptura com a sociedade mercantil.

Em Ricardo Antunes constata-se que o velho proletariado – que se consolidou com o modelo de otimização taylorista/fordista e na política com o keynesianismo (Jappe;2006) – já não existe mais.

Mas o que é proletário? Deve ser a pergunta inicial para nortear nosso ensaio.Proletário é quem despossuído do meio de produção ( a lavoura, a fábrica, a prestadora de serviços) é obrigado a vender sua força de trabalho em troca de um salário.

Então já não há quem venda sua força de trabalho? Lendo Antunes não é bem isso que se conclui. Há proletários ainda mas estes ganharam novos predicados.

Para não ficarmos no campo da abstração, vamos dar um exemplo tirado da política brasileira. O próprio Luís Inácio Lula da Silva constata, que na época de sua juventude, bastava ao migrante nordestino como ele, fazer um curso de torneiro mecânico no SENAI, que o mercado de trabalho lhe acenava com o pleno emprego, enquanto que hoje um engenheiro mecânico formado pode ficar desempregado.

Para esmiuçar o que aconteceu nesse processo aqui, cabe buscar-se em Marx.Para o autor de “O capital”, Antunes diz que ele tratou o proletariado e a classe trabalhadora como sinônimos.

No século XIX, os trabalhadores assalariados eram centralmente proletários industriais.

Hoje a classe trabalhadora é o conjunto do que Marx chamou de ‘trabalhadores produtivos’.Desse modo, a classe trabalhadora hoje não se restringe somente aos trabalhadores manuais diretos, incorpora a totalidade do trabalho social, a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força de trabalho em troca de salário. Contudo, ela é hoje centralmente composta pelo conjunto de trabalhadores produtivos que são aqueles que produzem diretamente mais-valia e que participam também diretamente do processo de valorização do capital.

Antunes afirma que a classe trabalhadora hoje, engloba também o conjunto dos ‘trabalhadores improdutivos’. Aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviços, seja para uso público, como os serviços públicos tradicionais, seja para uso capitalista. O trabalho improdutivo seria aquele que não se constitui como elemento vivo no processo direto da valorização do capital e da mais-valia.
O capital também depende fortemente de atividades improdutivas para que as suas atividades produtivas se efetivem. Mas aquelas atividades improdutivas que o capital pode eliminar, ele assim tem feito, transferindo muitas delas para o universo dos trabalhadores produtivos.

Antunes constata um paradoxo do capitalismo atual: dado que a todo trabalho produtivo é assalariado mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo, uma noção de classe trabalhadora deve incorporar a totalidade dos trabalhadores assalariados. Assim, a classe trabalhadora hoje é mais ampla do que o proletariado industrial do século passado, embora o proletariado industrial moderno se constitua no núcleo fundamental dos assalariados.Quer esses assalariados executem atividades materiais ou imateriais, quer atuando numa atividade manual direta, quer nos pólos mais avançados das fábricas modernas, exercendo atividades mais “intelectualizadas”( que num número reduzido), trabalhadores esses caracterizados por Marx como “supervisor e vigia do processo de produção” (Grudrisse).

Antunes incorpora na classe trabalhadora o que denomina de proletariado rural, que vende sua força de trabalho para o capital, os chamados bóias-frias das regiões agro-industriais.

Mas o ponto de maior relevo, no ensaio de Antunes, é quando ele incorpora o proletariado precarizado, o qual ele denomina de subproletariado moderno, fabril e de serviços, que é ‘part time’, que é caracterizado pelo trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, como são os trabalhadores dos Mc Donald’s, dos setores de serviços, dos ‘fast foods’, que o sociólogo do trabalho inglês Huw Beyon denominou de operários hifenizados, são operários em trabalho-parcial, trabalho-precário, trabalho-por-tempo, por-hora.

Nesta altura do ensaio de Antunes é que estão criados os desafios para as esquerdas, desde aquelas que querem administrar o capital, quanto aquelas que pretendem superá-lo.

O mundo que criou Lula não existe mais.

A primeira tendência que vem ocorrendo no mundo do trabalho hoje é uma redução do operariado manual, fabril, estável, típico da fase taylorista e fordista do pleno emprego. O proletariado industrial brasileiro teve um crescimento enorme nos anos 60 e fins de 70. O ABC paulista tinha cerca de 240 mil operários em 80, hoje tem pouco mais de 110, 120 mil[aqui utilizo dados estatísticos de Antunes, como o livro já tem 10 anos de publicação, pode ser que tenha havido uma redução ainda maior.]Se a Volkswagen tinha 40 mil operários, hoje tem menos de 20 mil, produzindo, entretanto, muito mais.

André Gorz percebeu que há uma tendência marcada pelo enorme aumento do assalariamento e do proletariado precarizado em escala mundial.Assim, paralelamente à redução de empregos estáveis, aumentou em escala insustentável o número de trabalhadores em regimes de tempo parcial, em trabalhos assalariados temporários.

Antunes diz que o capital reconfigurou uma nova divisão sexual do trabalho. Nas áreas onde é maior a presença do capital intensivo, de maquinário mais avançado, predominam os homens.E nas áreas de maior trabalho intensivo, onde é maior a exploração do trabalho manual, trabalham mulheres.

E o toyotismo onde fica nisso tudo? O toyotismo ou modelo japonês de gestão da cadeia produtiva é o principal responsável pelo surgimento desse novo proletariado. Não esquecendo é claro que a toyotização da produção não é causa, mas efeito da grande crise do capital com a revolução micro-eletrônica e com a falência do modelo keynesiano da década de 70 (Jappe;2006).

O Toyotismo, criado pela indústria automobilística japonesa, caracteriza-se pelo que seus executivos empolgados chamam de “redução do desperdício” e curiosamente os capitalistas japoneses se inspiraram no modelo norte-americano de gestão de supermercados, da indústria têxtil.Assim, com a intensificação do tempo e do ritmo de trabalho cria-se níveis insuportáveis de exploração do trabalho. A jornada de trabalho pode até reduzir-se, com a pressão de operários mais radicalizados, enquanto o ritmo se intensifica.

Desse modo, o processo toyotista de gestão da cadeia produtiva traduz-se pelo fato de que é um operário ou uma operária trabalhando em média com quatro, com cinco, ou mais máquinas. Enquano no modelo fordista e taylorista havia uma especialização de tarefas. Além disso, esses trabalhadores, sob o modelo japonês, são desprovidos de direitos ( a chamada flexibilização do trabalho) – como se vê no pólo industrial do município de Horizonte, tão enaltecido pelo Governo das Mudanças de Tasso Jereissati e continuado pelo Governo Cid Gomes – seu trabalho é desprovido de sentido, em conformidade com o caráter destrutivo do capital, pelo qual relações metabólicas sob controle do capital não só degradam a natureza levando o mundo à beira da catástrofe ambiental ( como o Estaleiro que Cid Gomes queria no Serviluz indiferente a um forte impacto sócio-ambiental), também precarizando a força humana que trabalha, desempregando ou subempregando-a, além de intensificar os níveis de exploração.

Desta forma, Antunes conclui que a classe trabalhadora atual é mais explorada, mais fragmentada, mais heterogênea, mais complexa.

Ainda que não houvesse uma homogeinização total no taylorismo/fordismo do século XX (trabalhadores homens, mulheres, qualificados e não qualificados, nacionais e imigrantes, jovens etc.) deu-se uma enorme intensificação desse processo, que alterou sua qualidade, aumentando e intensificando em muito as clivagens anteriores.

E como fica a consciência de classe em face da tayotização da cadeia produtiva? A antiga solidariedade operária ( de que se falava Bakunim) fica completamente prejudicada, pois o trabalhador passa a introjetar os valores do proprietário da empresa.Deste modo, qualquer resistência, rebeldia, recusa, sabotagem são completamente rejeitadas como atitudes contrárias “ao bom desempenho da empresa”, tornando o trabalhador um déspota de si mesmo. Deste modo, o trabalhador é instigado a se auto-recriminar e se punir, se a sua produção não atingir a chamada “qualidade total”. Assim, o trabalhador é levado a só pensar na produtividade, na competitividade, em como melhorar a produção da empresa, considerada sua “outra família”.

LIMITES DE RICARDO ANTUNES

Ainda que no ensaio de Antunes sejam levantados elementos extremamente inteligentes e pertinentes, é na parte final do livro que o pensamento do autor de “Adeus ao trabalho?” encontra seus maiores problemas.

Embora forneça um diagnóstico interessante sobre o novo proletariado e suas implicações para a transformação social, Antunes erra no remédio: ao propor o socialismo como solução para alienação desse novo proletariado no contexto da sociedade produtora de mercadorias.

Mas iremos esmiuçar bem essa parte para não cometer injustiças.

Antunes não quer o modelo de ‘socialismo num só país’ implantado pela stalinização do movimento operário. Ele quer um “projeto que tenha como horizonte uma organização societal socialista de novo tipo, renovada e radical”.

Em países emergentes dotados de significativo parque industrial como Brasil, México e Argentina Antunes vê um início possível de seu projeto.

Antunes acerta, parcialmente, ao ver na rebelião Zapatista do México como algo próximo de seu projeto – ainda que seja bom frisarmos que os Zapatistas não reivindiquem para si o termo socialismo; acerta ao identificar um potencial revolucionário nos movimentos dos trabalhadores desempregados e erra feio ao identificar o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) como nova forma de organização que se rebela contra o sentido destrutivo do capital.

E para ilustrar nosso argumento, vamos citar o caso, conhecido entre anti-capitalistas autênticos, ocorrido no interior do Estado do Ceará.

No município de Acarape há um assentamento de trabalhadores rurais ligados ao MST.

O Assentamento era dividido em dois grupos antagônicos: um majoritário, composto por trabalhadores rurais evangélicos, ligado a cúpula do MST e um grupo minoritário, auto-denominado de trabalhadores autônomos, que discordavam do modelo produtivista hegemônico do MST.

O grupo majoritário predominantemente evangélico, dentro dos moldes produtivistas, chegou a desmatar criminosamente uma mata ciliar de madeira sabiá para vender lenha e desenvolveu uma monocultura de cana-de-açúcar para empresa Ypióca em regime de trabalho precarizado, enquanto o grupo minoritário passou a ser perseguido por ter denunciado o majoritário ao IBAMA e por ter recusado o crédito do BANCO DO NORDESTE para não endividar-se.O grupo minoritário era discriminado pelos trabalhadores evangélicos por não fazer queimadas e por adotarem princípios não invasivos da agro-ecologia e da permacultura.

Toda essa longa ilustração foi para demonstrarmos que o MST não representa nenhuma ameaça ao modelo poluidor e concentrador de renda do ‘agro-business’ e que seus trabalhadores longe de quererem se emancipar da lógica perversa do capital, querem desesperadamente se integrar a ela.

O ensaio de Antunes é tremendamente feliz em mostrar um contexto proporcionado pela toyotização da produção e da reestruturação do capital e o impacto da subcontratação.Pois hoje empresas como a BENETTON e a NIKE em vez de concentrarem sua produção no interior da fábrica, parcelizam o trabalho pelo mundo todo, criando aberrações como as facções onde pessoas trabalham em residências sem direitos trabalhistas em jornadas estafantes.

Antunes aposta demais num suposto caráter anticapitalista do sindicalismo brasileiro.Fornece elementos para entender a gênese e o desenvolvimento da CUT e suas acomodações social-democratas, contratualistas; a partir da Articulação Sindical, entendidas nas políticas de parcerias, nas negociações com o patronato, nas câmeras setoriais, com vistas “ao crescimento do país” e sua cada vez maior atrelação à burocracia do Estado.

Antunes espera que no interior do sindicalismo brasileiro se controle fortemente os monopólios.

Ao nosso ver, Antunes espera demais por partidos e sindicatos mergulhados até a raiz dos cabelos na reprodução do capital e não em sua superação.

Antunes espera até que os sindicatos passem a promover uma auto-organização classista dos desempregados. Quando vemos os sindicatos cada vez mais presos a política de migalhas para os filiados empregados e até incentivando práticas xenófobas, ultranacionalistas contra os trabalhadores e subproletários imigrantes ou com hesitações anti-semitas.

A NOSSA PROPOSTA

É muito difícil uma emancipação social radical enquanto se insistir em categorias imanentes à lógica do capital: estado, mercadoria, trabalho, dinheiro, valor, política, partidos, sindicatos, ong’s.

Anselm Jappe nos ajuda em muito a desenvolver uma proposta consistente e transcendente à sociedade mercantil.Enquanto Antunes propõe uma emancipação no trabalho e pelo trabalho, propomos a emancipação do trabalho, a abolição do trabalho.Nas situações em que o trabalho já desapareceu ou nunca chegou a estar presente condenando um terço da humanidade à lata de lixo social, só a emancipação do trabalho pode sacudir a sociedade mercantil.

Parafraseando Jappe se o capitalismo foi uma ‘expropriação de recursos’ agora é necessário organizar a ‘reapropriação dos recursos’.Desse modo, para finalizar, propomos o controle social da produção em escala transnacional.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A REVOLTA LUDDITA




A REVOLTA LUDDITA
Charles Odevan Xavier

Este artigo pretende analisar o Movimento Luddita que ocorreu na Inglaterra nas primeiras décadas do século XIX.O movimento foi organizado pelos operários ingleses, revoltados por terem sido expulsos do campo, onde tinham pequenas propriedades rurais e passaram a adotar técnicas radicais de sabotagem de máquinas ou até de destruição do maquinário fabril e têxtil, no que resultou numa dura reação por parte do governo inglês: vários operários foram enforcados por quebrarem máquinas.Ou seja, o capitalismo urbano-industrial nascente mostrava a todos os cidadãos precarizados das urbes quem era mais importante para ele: a máquina, o lucro, o bem-estar do patrão.

O operário não era importante.Sua subjetividade, seus sonhos, desejos não contava.O que contava era que ele acordasse cedo com escuro e chegasse tarde em casa.Dormisse no máximo cinco horas por noite apenas para recuperar as forças físicas, para no dia seguinte voltar a um trabalho estafante, num ambiente sujo, empoeirado, úmido, escuro, sufocante.No início da industrialização da produção urbana e fabril, os fabricantes obrigavam os pais até a trazerem os filhos para as fábricas.E além das constantes mutilações nas máquinas por parte dos adultos cansados e mal alimentados, as crianças também foram vítimas de mutilações além de castigos corporais dados pelos capatazes das fábricas.

Ou seja, todo esse contexto foi gerando um espírito de revolta na classe operária inglesa da época.E os operários passaram a fazer a coisa mais lógica: destruir o maquinário que os oprimia.

A historiografia burguesa ou marxista mostra os revoltosos ludditas como um movimento desorganizado e espontaneísta.Mas a historiografia de orientação anarquista, como a obra "Os destruidores de Máquinas:In Memorian" de Cristian Ferrer, editada pelo selo anarquista Imprensa Marginal ( Caixa Postal 665 Cep 01059-970 Sp -Sp - imprensa_marginal@yahoo.com.br) revela dados impressionantes sobre o tipo de estratégias utilizadas pelos operários daquela época.A organização não era rígida nem burocrática, mas era extremamente eficiente e solidária.

Várias vezes a polícia inglesa tentou cooptar a classe operária oferecendo recompensas para quem delatasse os líderes revoltosos.As pessoas iam a delegacia, faziam delações falsas, recolhiam o dinheiro e iam para outra delegacia pagar a fiança de líderes presos.Ou seja, demonstrando o grau de consciência de classe e consciência política do operariado inglês.Ainda que essa consciência não fosse fruto de uma elaboração intelectual muito sólida ou respaldada num saber livresco.Muito pelo contrário, a classe operária inglesa não era muito escolarizada até pelo fato de terem vindo da zona rural onde o acesso à escola era muito difícil.O que prova que o chamado "povão" só é otário quando quer.Ou seja, as pessoas de baixo poder aquistivo, de pouca escolaridade, quando sentem na pele que estão sendo oprimidas e humilhadas pelos poderosos tem a total capacidade de se organizar e botar o opressor para correr.

Mas um dado surpreendente para mim do livro de Christian Ferrer: a maioria desses revoltosos ingleses eram camponezes da igreja metodista.Ou seja, mostrando que a religião evangélica inglesa daquela época em nada se parece com a igreja evangélica brasileira de hoje, totalmente bajuladora dos poderosos.

Os operários ingleses estava acostumados com uma vida tranquila no campo, onde não havia luxo mas todos tinham o de comer e não precisavam pagar aluguel. Pagavam apenas uma parte do que produziam para o dono do feudo. Ser expulso para a cidade grande, para servir de mão-de-obra quase escrava, morando em bairros péssimos e tendo que trabalhar o tempo todo, foi uma experiência traumática para esses ingleses pobres.Porque no feudalismo os camponezes trabalhavam poucas horas por dia, dependendo da sazonalidade das safras, indo dormir quando o dia escurecia enquanto na cidade grande as pessoas acordavam cedo e não paravam de trabalhar, pois com a eletrificação urbana o patrão raciocinava que não havia motivo para ir para casa.

É lógico que isso agredia a saúde física e psíquica desses trabalhadores e a solução não foi ficar rezando por dias melhores ou esperando o repouso no céu.Os trabalhadores ingleses partiram para ação e resolveram radicalizar.Identificaram no maquinário uma forma de manutenção de uma sociabilidade nociva, insana.Identificaram no maquinário a simbologia de uma cultura de instrumentalização do ser humano.Ou seja, o ser humano reduzido a sua dimensão mais utilitária.E toda vez que um operário perdia um braço ou um dedo no maquinário e era sumariamente demitido sem nenhum direito ou indenização, ficava claro para a classe operária inglesa como os patrões os encaravam: como coisas e não como gente.Ou seja, como força de trabalho, como algo que dá lucro ou prejuízo e nada mais.

Ou seja, num sistema social brutal e odioso como esse, só havia uma forma de impedi-lo de perpetuar-se: destruindo o maquinário têxtil que o reproduzia.Destruir a máquina era um gesto de recusa a uma vida absurda e alienada.Ou seja, o que os operários queriam eram se reapropriar de suas vidas.Ter o total controle sobre ela.É lógico que a reação dos patrões, do governo e da polícia foi brutal: quem eram esses "caipiras", esses analfabetos que ousam se rebelar contra nossa tirania? Vamos enforcar todos os líderes desse movimento.

O movimento luddita foi esmagado pela classe dominante e suas técnicas assassinas mas por outro lado foi vitorioso, porque obrigou o governo inglês a conceder alguns direitos à classe operária.Como aliás sempre o Estado capitalista faz: para não perder tudo e produzir uma situação incontrolável de convulsão social, os gestores públicos acabam fazendo pequenas concessões ao povo.E é nisso que a classe dominada pode acabar sendo enfraquecida por acomodação, passividade e por uma falsa ilusão de que participa da sociedade de consumo quando o seu poder de compra aumenta, ainda que de forma insignificante.Contudo, os ludditas mostraram para os patrões que os trabalhadores não são os "carneirinhos" dóceis e mansos que eles incentivam com toda uma indústria da passividade.Mostraram que a qualquer momento o germe da revolta pode se espalhar novamente.