quinta-feira, 28 de agosto de 2008

AMOR E LUTO


Eu o esperava desde 1993.
E ele finalmente chegou.
Trouxe flores,
bombons
bihetes líricos
links

Mas aí ele me revela
que morrerá
em breve.

Não ficou claro
se de próstata,
aneurisma
ou coágulo.

Terei que refletir
e ponderar
qual o significado
disso tudo.

E me sinto culpado
porque uma vez com raiva
de sua distãncia
desejei que ele morresse.
e ele vai morrer.
mas eu vou fazer
tudo para que sua
passagem
seja bem divertida
bem confortável
agradável
e saudosa

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O MEU PAI


O meu pai é um um homem eficiente
e sempre quero mostrar para ele
o quanto cresci e amadureci.

Sempre quero chamar a atenção dele.
Quero sem bem sucedido como ele.
E quero ele mais perto
para me aconselhar
e dizer o que devo fazer
e o que devo evitar.

O meu pai
é um homem de livros
mas principalmente de ações.
É um homem muito prático.
Com os pés muito fincados na terra
E eu gosto dele
e até do jeitão meio Casca Grossa dele.

Eu admiro muito meu pai.
E acho que vou comprar uma gravata azul para ele
quando receber o meu próximo salário.

domingo, 24 de agosto de 2008

POEMA ARREPIADO PARA REBECA MATTA


Poema arrepiado para rebeca matta
Garotas boas vão para o céu
garotas más vão para qualquer lugar

entre o inferno de estar longe de ti
entre o paraíso de não tiver perto de mim
onde tu se esconde?
Por debaixo da mesa onde a feijoada esfria
numa praia distante em outro estado
no corpo de outro homem
que me visita.
Onde tu se esconde?

escuto o drum'n'bass de Rebeca Matta
com seus timbres eletrônicos
ruídos esquisitos
e distorções de guitarra

Chove ácido sulfúrico em Vênus
Os aneis de saturno não anunciam casamento
Meu pai ariano empresário que me evita
FODA-SE

terça-feira, 19 de agosto de 2008

ESCRITA DE CULHÕES: UMA LITERATURA MAL EDUCADA


Este estudo tenta tecer uma reflexão sobre um tipo de literatura, de escritura, não muito estudada ou levada em consideração pela academia, pela Teoria da Literatura e ou pela crítica literária.

Estou falando e evocando a literatura escrita por homens.Houve até um jornalista que, muito apropriadamente, batizou o "corpus" que vou analisar de literatura de culhões ou escrita de culhões.E essa categoria literária eu nunca ouvi falar nos corredores do Mestrado em Literatura por exemplo, o que revela que pode ser mais uma invenção de jornalista para vender livro.Como também pode revelar que a Academia tem uma certa postura burguesa ou asséptica de torcer o nariz para autores que deliberadamente violetam a norma culta ou que no entender dela faria uso de procedimentos estilísticos e de enunciação que fugiriam do cânone literário.

Para a discussão não ficar muito no campo da abstração vou começar a evocar autores que, no meu entender, fariam totalmente ou em parte uso dessa 'escrita de culhões'.

A literatura durante algum tempo pareceu dissociada do corpo de quem a produz e de quem a enuncia.Fruto de inspiração das Musas, produto de elaboração lingüística sofisticada e enamorada do Vernáculo, a literatura não seria o lugar para expressar o corpo e suas secreções ou pulsões.O corpo até ali não era ouvido nem sentido na literatura.O corpo era negado.Produção do espírito e apenas do espírito, a literatura exilou o corpo durante muito tempo.

A literatura seria então o lugar da expressão do sublime, do puro, do inefável, do sagrado.Escritor bom era aquele que sabia ler Latim, Grego ou Hebraico.Escritor bom era aquele que conhecia e dominava a Gramática ou que na infância tivesse feito análise sintática de "Os Lusíadas". Poeta bom era aquele que dominava a escanção do verso, ainda que seu verso fosse chocho e insípido.Isso foi o cânone da Literatura ocidental por muitos anos.

A literatura deveria ser comportada e certinha, bonitinha.Na Grécia Antiga a Tragédia seria o gênero literário maior.E como gênero maior teria que ter personagens maiores e cenários maiores.A Tragédia grega era o lugar dos grandes sentimentos e dos grandes homens.Leia-se aqui grandes homens como os reis, rainhas.E lugar dos grandes temas.Assim, a tragédia grega deveria falar apenas das peripécias amorosas, das mesquinharias e das disputas de poder envolvendo Reis e Rainhas ciumentas e vingativas ou de filhos querendo tomar o lugar do Rei pai.A linguagem deveria ser nobre, rebuscada.

Na Grécia Antiga os escritores que quisessem falar de pessoas menores e sentimentos menores deveriam escrever Comédias.É nas comédias que era permitido existir a plebe grega e romana, amantes escravos e soldados fanfarrões.É nas comédias que era permitido existir o calão, o palavrão, obscenidades, erotismo.Porque tudo isso era associado as classes populares, ao populacho, ao povão.Então assim, o grave, o solene era associado ao Rei e a Rainha, já o rídiculo, o obsceno, o grotesco, o bizarro, o escatológico era associado ao escravo e ao soldado.

Na Idade Média com a influência da Patrística e suas elocubrações tagarelas sobre a natureza de Deus, os escritores e poetas foram tolhidos em sua expressão estilística.E muitos os que ousaram escrever coisas sobre sentimentos considerados menores ou pessoas menores foram aconselhados a usar pseudônimos.

E mesmo na chamada Modernidade, os autores que ousaram relatar pessoas fazendo coisas não muito nobres ou que descreviam o uso das partes baixas do corpo foram perseguidos e presos como Marquês de Sade ou o poeta Charles Baudelaire em seu livro seminal "As flores do Mal", que ousou fazer versos sobre práticas de Lesbianismo e acabou tendo de pagar um multa pesadíssima ao governo francês.

A literatura a partir do Romantismo da Segunda geração, também chamada de Ultra-romantismo ou geração byroniana, passou a ser transgressora e a falar das coisas que eram consideradas tabus abertamente.Fruto talvez de uma sociedade que passava da tranquilidade camponesa da vida rural e de pequenas cidades comerciais para o frenetismo das grandes cidades pautadas pelos ritmos da Revolução Industrial.

Uma nova classe social surgiu em oposição a nova classe burguesa proprietária: o proletariado urbano.E lentamente esse novo ator social começou a aparecer na literatura.

Inicialmente a figura grosseira e desagradável do operário urbano analfabeto ou semi-escolarizado apareceu na obra dos romancistas franceses como Flaubert, Balzac e Zola.

E na literatura inglesa começou a aparecer de forma vigorosa na obra de Charles Dickens.Ele mesmo um ex-operário que teve a infância marcada pela pobreza, pela miséria, pelos maus tratos de capatazes de fábrica que espancavam os filhos dos operários na frente deles.Esse cotidiano duro marcou como ferro em brasa o imaginário do menino Charles Dickens e isso é patente em sua obra autobiográfica, em que meninos driblam as longas jornadas de trabalho com os livros escolares.

Na Literatura brasileira, por incrível que pareça não veremos isso na obra de um Machado de Assis.Mulato pobre, gago, epilético, Machado de Assis não fala de pobres, gagos, negros ou mulatos em sua literatura.Pelo contário, imitando José de Alencar, o autor de "Memórias Póstumas de Bras Cubas" só falou dos mexericos da corte do Rio de Janeiro.Só que em José de Alencar isso fazia sentido.Afinal José de Alencar era um importante latifundiário, proprietário de terras e escravos e enamorado pela bajulação ao poder imperial de Dom Pedro II.Então José de Alencar ao falar de personagens da Corte fazia todo o sentido, porque ele era branco, rico e da Corte.Mas Machado de Assis, não.Mas gostaria de ser.E sua literatura ao falar de gente rica e branca reflete esse desejo de Machado pertencer a esse círculo de sangue azul.

Já Lima Barreto optou por outro caminho.Era mulato, pobre e alcóolatra e em sua literatura há a presença de mulatos, negros, pobres, alcóolotras e os favelados do Rio de Janeiro da época.E pagou caro por isso.Por mostrar pessoas e cenários que não deveriam ter sido mostrados Lima Barreto chegou a perder emprego, teve diversas internações em manicômios e terminou nas ruas do Rio de Janeiro mulambento e cheirando a cachaça.

No Modernismo Brasileiro isso começa a mudar.Até porque o cenário político é outro.O desenvolvimento de grandes centros industriais trouxe num novo desenho urbano, em que há mais espaço para a diversidade de opiniões ou ideologias e também até para o confronto nada fraterno entre essas concepções.

Assim, enquanto havia escritores tributários de uma literatura solene, série, nobre e de personagens elevados, legado do beletrismo Parnasiano, da influência das hozanas simbolistas e da fetichização do vernáculo de um Rui Barbosa de um lado, havia também escritores comprometidos com as transgressões das vanguardas européias.

E ser transgressor nesse contexto na era só experimentar no campo lexical ou fornecendo pirotecnias sintáticas, não.A transgressão também estava em cantar o homem comum, mediano, medíocre, banal.

A literatura a partir daí passar a cantar a banalidade do cotidiano e passou a penetrar nos segredos de alcovas, nas obssessões e perversões sexuais das pessoas.

Porque se em José de Alencar as pessoas apareciam vestidas em seus paletós, com os escritores modernistas são os operários e as pessoas de baixo poder aquisitivo que surgem em suas cozinhas preparando feijoadas ou nuas em seus quartos entre orgasmos e gases fétidos involuntários.

Estou falando de Jorge Amado que mostrou o cotidiano dos pobres e negros da Bahia.E como disse Miguel Falabela em comentário inteligente sobre o extinto Programa do Ratinho:" - O Programa do Ratinho mostra a cara do Brasil real.E é uma cara feia". Assim, Jorge Amado fala das greves dos estivadores dos portos de Salvador, fala dos coronéis cacaueiros do Ilhéus e suas taras sexuais pelas negrinhas que trabalhavam em suas fazendas, fala das macumbas, dos candomblés.Enfim, é uma literatura que fala do povo em todo o seu vigor e brutalidade, não se furtando em registrar a língua grosseira popular.E até os seus palavrões dão o colorido do rico painel do povo baiano.

Moreira Campos, na literatura cearense, também registra a grosseria vocabular do povo cearense, especialmente dos machos cearenses.Aliás seus personagens são sempre homens excitados e que pensam em sexo o tempo todo.

A "Escrita de culhões" seria a expressão desses escritores homens que fazem uma certa apologia da virilidade, da masculinidade e da força bruta.E que elege como personagens homens simples e pouco escolarizados.E como cenários butiquins, cabarés, motéis, lugares onde a língua portuguesa se despe do policiamento gramatical e assume toda a rudeza do cântico aos buracos da mulher amada. Talvez até como uma manifestação de uma certa insegurança em sua orientação sexual, porque muitos associam a literatura e a poesia como coisa de mulher ou de homens emasculados, abaitolados, aqueles menininhos que em vez de ir jogar bolar, fazia todos os deveres de casa, rezava todas as rezas da avô, ou seja, um mariquinha.

E se no universo da Literatura Brasileira esse erotismo aparece viril, vigoroso mas suavizado pelo amolecimento sensual do homem latino; já na Literatura Inglesa, a "Escrita de culhões" aparece de uma forma tão crua e seca que resvala ao patológico e ao crime, devido a própria secura e rudeza da língua inglesa e da cultura anglo-saxônica que a inspira.Os americanos, os ingleses e os alemães não são muito dados a ficar desdobrando a mulher amada com poemas apaixonados ou com seduções românticas como fazem os latinos.Pelo contrário, vão logo direto ao assunto e abrindo a braguilha. Basta ver o cinema pornô produzido em países de língua inglesa.Lá as mulheres são tratadas como putas que devem ficar caladas, enquanto seus machos as violam com brutalidade, palavrões e até simulação de estrangulamento.Porque são culturas muito focadas no homem, no macho.E isso resvala também na literatura desses países.

Basta ver a grosseria de um Ernest Hemingway muito empolgado em exibições de força e virilidade gratuita em caçadas e safaris na África ou em cópulas violentas com mulheres submissas.

Ou a literatura barra-pesada de um Charles Bukowsky mostrando homens bêbados e fedorentos roçando a barba em mulheres dentro de apartamentos de quinta categoria.

Ou ainda a obra de um Henry Miller, em que personagens fazem comentários extremamente depreciativos sobre as proezas sexuais de suas esposas gordas e que expelem gases mal-cheirosos durante a cópula.

Esse estudo poderia apontar para exaustivas análises em pârametros psicanalistas ou dentro das premissas da crítica feminista, mas confesso que conheço pouco a aplicação da Psicanálise a esse tipo particular de expressão literária, a literatura escrita por homens, como também, não tive muito acesso a estudos feministas sobre romancistas e poetas declaradamente machistas.

Tudo isso ainda deve render estudos.Até porque a crítica feminista ficou durante muito tempo voltada para o seu próprio umbigo: a contemplação de escritoras que supostamente escrevem com o útero.

Pouco se escreveu sobre essa literatura feita por quem tem testículos.Testículos esses tão obssedantes que conseguem ficar patente na urdidura desses escritores citados e de outros que poderiam ser citados também e ficaram de fora.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

ENTRE A DOR E O GOZO: A OBRA DE FRANCISCO BRENNAND


Este artigo contempla a exposição "Brennand: uma introdução" em cartaz no Museu de Arte Contemporânea, que faz parte do complexo cultural chamado Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura aqui da cidade de Fortaleza.

Eu fui ver a exposição ontem e sempre vou aos domingos porque é o dia em que o museu não cobra a entrada.Ou seja, é o dia da pipoca, da mundiça, o dia dos "lisos" como se diz aqui no Ceará."Liso" quer dizer sem dinheiro, sem capital.

A exposição "Brennand:uma introdução" contempla a obra do pintor e escultor pernambucano Francisco Breenand nascido em Recife no ano de 1927, descendente de uma família de ingleses.
Ele começa a aparecer no cenário nacional das artes-plásticas na década de 60, mas é na década de 70 que ocorre uma grande virada na sua trajetória artística, quando toma posse das instalações semi-abandonadas de uma antiga fábrica de cerâmica pertencente a seu pai e transfere para os amplos galpões seus ateliês de pintura e modelagem.Dedica-se então, sobretudo, à escultura moldada em argila.

Na exposição o curador Olívio Tavares de Araújo selecionou as esculturas que o consagraram e também suas pinturas.Por uma deficiência minha imperdoável não consigo informar qual a técnica utilizada em seus quadros.Não sei informar se ele utilizou óleo ou acrílica.

O que posso informar é o sentimento que tive ao ver seus quadros de uma expressividade forte e carregada, em que imagens distorcidas, corpos de mulheres nuas deformados, traços e contornos impressionistas bem suaves dialogam com tintas espatifadas na tela com espátula de forma grosseira.

Em alguns quadros o pintor brinca com um certo simultanéismo plástico que remete um pouco ao cubismo de corpos desfocados, mas as cores são suaves, ternas, nos fazendo lembrar os impressionistas franceses do século XIX como Degas, Cézane, Manet, Monet.

Em outros, corpos de meninas nuas aparecem em poses desajeitadas mas extremamente sedutoras, mostrando que a tão alardeada fragilidade do sexo feminino é uma balela, pois é na aparente fragilidade dessas ninfetas que o velho macho pintor se apresenta aprisionado, rendido e indefeso.

Num dos quadros uma bela moça vestida com roupas acochadas, uma mulata da bundona, está no quintal de uma casa numa pose sensual e provocante.Perto dela um velho a espreita com olhos lascivos e cheio de luxúria.

Noutro, um homem aparece com um máscara de lobo mau e ao longe uma menina observa.Aqui o pintor Brennad brincou com a estória de Chapeuzinho vermelho.

Nas salas dedicadas à esculturas vemos toda a força da plasticidade brennandiana.Suas esculturas grandes remetem aos totens primitivos.É uma arte estranha, dramática, com muita morbidez em seus corpos deformados e agigantados revelando nádegas grandes e seios volumosos, que nos fazem lembrar daquelas Vênus e daquelas Tanagras, aquelas mulheres gordas esculpidas pelas tribos primitivas com suas grandes vaginas inchadas, feitas como um recurso mágico de proporcionar fertilidade e gravidez saudável às mulheres da tribo.

Há quem sinta a sensação de estar em algum monumento da antiguidade oriental - um templo ou palácio mesopotâmico, talvez, construído há 3.000 ou 4.000 anos.Há nessas esculturas algo de sagrado.Mas é um sagrado de outra natureza e não o religioso água-com-açúcar da plasticidade sacra cristã.Há toda uma carga de violência, como se apontasse que o destino do homem é sempre trágico e sangrento.

Brennand alude em suas esculturas a centenas de personagens da história antiga e da história européia, da mitologia greco-romana, da Bíblia Sagrada.

Numa das salas, o curador reuniu as esculturas que são mais claramente relacionadas ao campo da sexualidade.Lá vemos nádegas gordas penetradas por parafusos grossos simulando pênis avantajados.Outras esculturas se assemelham a enorme falos, como se fossem rôlas grandes, grosseiras e cheias de veias. Corpos desformes são atravessados por cravos e parafusos como se simulassem momentos de extrema dor e gozo.

Num documentário exibido pela TV Cultura há alguns anos atrás, Francisco Brennand disse que sua obra tem uma boa fortuna crítica, mas que o melhor comentário crítico veio de uma dona de casa comum, que entrou em seu ateliê nos arredores de Recife.Ela entrou e circulou pelas esculturas e depois procurou o escultor e lhe disse: - Seu Brennand, eu nunca vi tanta imoralidade na minha vida como vi aqui no seu ateliê.E a mulher foi embora zangada com o escultor.

As esculturas de Brennand revelam uma obra forte, vigorosa e viril que vale a pena ser vista.

terça-feira, 22 de julho de 2008

FINAL DE TARDE NA DITADURA MILITAR


Esta narrativa é fruto da minha memória e se passa dentro de um ônibos lotado num final de tarde crepuscular e tristonho, de um dia qualquer e de um mês qualquer e prosaico de um ano impreciso que pode ser 1976 ou 1978, em plena ditadura militar da década de 70 no Brasil e no Ceará.


Não consigo lembrar com exatidão qual a idade que tinha nesse episódio.Mas devia ter uns cinco ou seis ou sete anos de idade mais ou menos, posto que nasci em 1972 em plena ditadura Médici.


Lembro apenas das emoções contidas nesse evento sem graça, sem glamour e sem maiores atrativos como a vida das pessoas que pegam ônibus lotados no centro da cidade de Fortaleza e vão para as suas respectivas periferias empobrecidas depois de um dia estafante de trabalho.


Esta narrativa é um olhar oblíquo sobre a ditadura militar da década de 70. É um olhar oblíquo e inviesado sobre os anos de chumbo e cacetete, porque naquele momento eu era apenas um menino totalmente afastado de supostos protagonistas e heróis da resistência, ou da dita abertura democrática.Eu estava bem longe do centro de decisões geopolíticas ou biopolíticas das coisas, pelo simples fato de que eu era filho adotivo de uma professora de ensino fundamental e alfabetização.Uma mulher batalhadora sem dúvida, mas totalmente avessa ao universo dos livros e da interpretação crítica da realidade.Muito pelo contrário, a minha mãe adotiva era a cidadã preferida por um governo autoritário daquele ou da época em que vivemos atualmente: totalmente alheia aos noticiários, totalmente desinteressada por economia, política, sociedade, comportamento.Mais uma professora a reproduzir o Hino Nacional, a ensinar os alunos a rezarem o pai nosso e a salve rainha.Ou seja, mais uma operária da mediocridade.


E eu era um menino dentro daquele ônibus lotado no colo de minha mãe adotiva.Totalmente entediado e pensando como pensa uma criança sem muita elaboração intelectual: que vida chata, que chatice.E aí ficava pensando e me angustiando.Se for para casa vai ser chato e vou ficar sozinho sem ter com quem brincar.Se for para escola que minha mãe fundou para conseguir uns trocados a mais, para complementar o orçamento, vai ser chato do mesmo jeito, porque também não vou ter com quem brincar.


E era estranho para mim, eu tão pequeno, e já pensando nessas coisas: na chatice da vida, na monotonia, na rotina, num cotidiano insípido e incolor.Hoje talvez com uma certa elaboração intelectual vejo que já desde criança eu trazia o germe da insatisfação que me acompanharia e me acompanha por toda vida.


Não consigo lembrar qual era a música que saia dos altos falantes daquele ônibus.Mas com certeza devia ser alguma coisa permitida e tolerada pela Ditadura ou quem sabe até uma super rebelde banda de rock de protesto americana.Como era americana e cantava em inglês, a Ditadura permitia que as pessoas ouvissem dentro de ônibus ou lugares populares porque sempre ninguém iria saber mesmo o que o cantor revolucionário estaria cantando mesmo.Ou seja seria cômodo para a Ditadura promover música americana, ainda que de protesto, contanto que fosse em língua inglesa e que o povão não entendesse.


Mas acho que talvez nem isso.Com certeza deveria está tocando algum brega da época inventivando os homens a serem mais machistas do que eram ou algum forró promovendo a sociedade de consumo.Enfim, não lembro.


Só lembro claramente dos meus sentimentos e do rosto triste das pessoas.Eu via nos rostos todo o enfado daquelas pessoas.De como a vida era insuportável para elas.E aquilo me deprimia.


Fortaleza me deprimia naquela época e me deprime hoje.Naquela época havia uma ditadura militar financeira e monetarista.Hoje há uma ditadura do dinheiro, do mercado tão financeira e monetarista quanto aquela.


Ou seja, naquela época os discordantes, os dissidentes sociais não podiam se reunir.Hoje eles podem mas não o fazem, porque custa caro alugar uma sede para as reuniões.Custa caro manter-se vivo.Custa caro pagar as contas.Custa caro alimentar-se como uma comida cada vez mais artificial, envenenada de agrotóxicos e com poucos nutrientes.E pra variar continua custado caro PEGAR ÔNIBUS.

domingo, 13 de julho de 2008

O EU DISSONANTE


Há dois movimentos básicos
dentro de mim.

Um aponta para a paz
lugares ermos
montanhas verdes
praias desertas
monastérios budistas
conventos católicos
introspecção e silêncio

O outro aponta para a guerra
lugares agitados
cidades grandes
trânsito engarrafado
terminais de ônibus
piquetes de fábrica
pichação de muros
sabotagem de máquinas
greves selvagens
muito barulho por nada

Um parte de mim
acredita na humanidade
num outro mundo possível

outra parte de mim
quer que a humanidade se exploda

O ser humano é um aborto da natureza
um grande penico de excremento
o ser humano caga e peida

às vezes me vejo
como uma espécie de apóstolo da paz
o difusor do desarmamento


outras vezes
me diverte assistir Calígula
ler Marquês de Sade
ver cenas de gladiadores romanos
arrancando braços e cortando pescoços


Só gosto de futebol
quando a torcida invade o campo
quebra o alambrado
a polícia espanca, prende
e tudo termina com muitos mortos e feridos

O vulcão expelindo gases venenosos
e lava incandescente
me parece muito mais belo e soberbo
que a nona sinfonia de Beethoven

Sou Aquário, diplomacia e encontros entre povos
Sou Áries, o terrível deus dos genocídios