quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

ORIXÁS SEGUNDO EDIR MACEDO


ORIXÁS SEGUNDO EDIR MACEDO
Charles Odevan Xavier


“Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos”.
DEUTERONÔMIO 18.10,11.

O propósito deste estudo é analisar criticamente o livro “Orixás, Caboclos & Guias: Deuses ou demônios?” do Bispo Edir Macedo – 15ª edição. Rio de Janeiro: Universal, 2000.

Tentamos, através desta pesquisa, estabelecer um confronto entre fontes bibliográficas diversas, no intuito de sondar como o conceito de orixá é construído pelo proprietário da Igreja Universal do Reino de Deus. Por isso, somos obrigados a revelar que utilizamos as seguintes obras para podermos escrever este estudo. Sendo elas: “Bíblia Shedd: Antigo e Novo testamento – São Paulo: Vida Nova; Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997; “Livro de Exu: o mistério revelado” – Rubens Saraceni – São Paulo Madras, 2006; “As sete linhas de umbanda: a religião dos mistérios” – Rubens Saraceni – São Paulo: Madras, 2003; “Na terra dos orixás” – Ganymedes José – São Paulo: Editora do Brasil, s/d.; “Iniciação à umbanda” – Dandara e Zeca Ligiéro – Rio de Janeiro: Nova Era, 2000; “Orixás!”– Mônica Buonfiglio – São Paulo: Oficina Cultural Esotérica, 1995; “Lúcifer: O Diabo na Idade Média” – Jeffrey Burton Russel – São Paulo: Madras, 2003; “Introdução à Filosofia Védica” – Satsvarupa dasa Gosvami – São Paulo : Bhaktivedanta Book Trust, 1986.

AS VIRTUDES DA IGREJA UNIVERSAL

A IURD - Igreja Universal do Reino de Deus surgiu em 1977 no Brasil e hoje está presente em mais de 80 países.

Por apresentar um perfil de uma verdadeira multinacional da fé, deve ter chamado a atenção do Imposto de Renda e talvez, por isso, tenha adotado um seriíssimo trabalho social, em que ela oferece cursos gratuitos de qualificação profissional para trabalhadores desempregados. Isso em se tratando da realidade da capital do Ceará, onde moro, não saberia informar como esse trabalho é feito no resto do país.

A IURD do Bispo Macedo publica o jornal semanal “Folha Universal”, um interessante meio de comunicação distribuído gratuitamente, permitindo que o povão de baixa escolaridade e sem acesso às bibliotecas tenha à mão informações atualizadas sobre economia, política, comportamento e cultura.

AS VIRTUDES DE EDIR MACEDO

O Bispo Edir Macedo é orador, conferencista e tem doutorado em Divindades, Teologia e Filosofia Cristã.

A obra “Orixás, Caboclos & Guias: deuses ou demônios?” do bispo Edir Macedo é muito bem escrita e prende o leitor até o fim. Eu comprei o livro às 10 h da manhã e só parei às 23 h.

O índice instiga o leitor a ler o livro. A capa, extremamente apelativa (em tons vermelhos e pretos nas cores das elebaras da quimbanda), desperta a curiosidade de alguns e o medo supersticioso de outros.

A obra apesar de curta (156 pgs.) vale à pena ser lida por qualquer estudioso sério das chamadas religiões populares.

QUAL O OBJETIVO DO LIVRO DE MACEDO?

O Bispo Edir Macedo deixa claro na folha de rosto do livro (dedicada a todos os pais-de-santo e mães-de-santo do Brasil) e na introdução, que seu propósito não foi o de achincalhar os praticantes da umbanda, quimbanda ou candomblé, mas o de lutar contra o que chama de demônios “pelos quais tem repugnância e raiva” p. 7 ou “Não vamos falar sobre cada um desses assuntos, pois este livro tem a finalidade principal de esclarecer o leitor em relação à verdade que está escondida por trás de tudo isso, e não tem a preocupação de transmitir ensinamentos sobre essas coisas” p. 13. Assim, o livro não pretende difundir o que denomina de demonismo, mas combatê-lo.

Macedo revela ter lido registros de suposta atividade demoníaca desde as religiões mais remotas como o vedismo, o bramanismo e o hinduísmo (2000 a.C.), onde os chamados demônios seriam ora repudiados, ora adorados como deuses. Assim, segundo ele, tanto nas religiões hindus, egípcias ou babilônicas, quanto nos nativos da África e outras regiões, os “demônios” têm sido evitados ou adorados.

Em Sociologia é curioso o conceito de “ressemantização” ou “renomeação”. Ao longo do livro “Orixás, caboclos & Guias”, o autor se vale dessa eficiente estratégia discursiva. Assim, ao longo da obra Oxum, Iemanjá, Ogum, de orixás são rebatizados como demônios. (p.14) Macedo com isso pretende desmoralizar e desautorizar os orixás e toda a tradição ancestral afrodescendente. Dessa forma, ele intenta fazer com que o leitor que pegou seu livro fique receioso de voltar a freqüentar terreiros de macumba.

Mas cabe perguntar: será Macedo realmente eficiente no seu propósito? Depende do perfil do leitor em jogo. Pois, Macedo, como autor, fez sua parte. Embora o Bispo não revele em nenhum momento a bibliografia utilizada (um grave defeito em metodologia científica), percebe-se pela riqueza de elementos, que Macedo pesquisou muito para escrever o livro.

Assim, Macedo terá sido competente – e provavelmente o foi na maioria dos casos – em se tratando do leitor mediano (a imensa maioria do público consumidor de livros no Brasil) que acredita em qualquer coisa que se diga, principalmente, quando o dito aparece embalado numa erudição mínima. Mas o leitor acostumado com os volumosos livros de Helena Blavatsky ou Allan Kardec (uma minoria no país) poderá achar o livro de Macedo superficial e apressado.

O QUE SÃO OS ORIXÁS?

Orixá s.m. (bras.) Divindade secundária do culto jejê-nagô ou iorubano; ídolo africano; representação antropomórfica de um orixá. (Do ior. Orisa).
DICIONÁRIO BRASILEIRO GLOBO – 20ª edição. São Paulo: Globo, 1991.

Orixá s.m. cada uma das divindades de origem africana cultuadas no candomblé, na umbanda, etc.
MINIDIOCIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Vejamos como o Bispo Macedo responde a pergunta deste tópico:
“Na realidade, orixás, caboclos e guias, seja lá quem forem, tenha lá o nome mais bonito, não são deuses” p.16.

Nisso Macedo acertou. Os orixás realmente não são deuses. Mas no parágrafo seguinte Macedo tampouco revela a real natureza dos orixás:

“Os exus, os preto-velhos, os espíritos de crianças, os caboclos ou os santos são espíritos malignos sem corpo ansiando por achar um meio para se expressarem neste mundo, não podendo fazê-lo antes de possuírem um corpo” p. 16.

E o leitor impaciente deve estar perguntando: se os orixás não são deuses e nem espíritos malignos, afinal, o que eles são realmente?

Vejamos como a taróloga Mônica Buonfiglio responde a questão:

“Existem várias definições a respeito dos orixás. A maioria coincide em alguns pontos básicos, o que nos permite afirmar, de maneira resumida, que orixás são divindades (ori, cabeça, e xá, força) intermediárias entre o Deus Supremo (Olorum) e o mundo terrestre, que são encarregados de administrar a criação e se comunicam com os homens através de rituais complexos” p.22.

Também é interessante vermos a definição do médium e pai-de-santo Rubens Saraceni:

“A resposta é simples, irmãos amados: orixás são mistérios da criação que se manifestam por meio da natureza, ou da criação” p. 13.

Nas respostas de Buonfiglio e Saraceni obtemos pistas interessantes para decifrar o enigma orixá.

Os orixás africanos são na realidade padrões simbólicos de uma cultura específica.

Cada civilização humana produziu padrões simbólicos – ou arquétipos, na fraseologia do psicanalista Carl Gustav Jung – peculiares. Entretanto, como a própria teoria jungiana do inconsciente coletivo revela, há elementos comuns a todas as culturas do planeta Terra.

E Macedo parece intuir isto quando diz:

“Os rituais judaicos do Antigo Testamento são copiados pela umbanda, quimbanda e, principalmente candomblé. A maioria dos símbolos do espiritismo é copiada, infernalmente, do Antigo Testamento” p. 71.

Mas aqui o Bispo se equivocou. Pois na verdade aconteceu o contrário. É o judaísmo (religião do Neolítico) que copiou os rituais e elementos simbólicos dos cultos primitivos fetichistas e animistas do período paleolítico anterior ao Antigo Testamento, influência da qual a religião de Moisés até hoje não conseguiu se libertar. Tanto que a natureza sangrenta desses rituais pode ser vistas espalhadas ao longo do Antigo Testamento, onde o povo hebreu tenta aplacar a sede de sangue do seu irado Deus Jeová com freqüentes subornos e adulações nos holocaustos de carneiros degolados, oferecidos em altares dentro de sinagogas ou tabernáculos. Basta ver que Abraão se angustia ao ser obrigado a oferecer seu filho Isaac como holocausto ao Deus de Moisés, que o rejeita apenas porque estava de bom humor.

Os orixás são mitos africanos do mesmo modo que os personagens da Bíblia Sagrada são mitos hebraicos. Assim, como Jung estabeleceu paralelos entre todas as culturas, podemos estabelecer aproximações entre os padrões simbólicos iorubanos e os padrões simbólicos semitas.

OS ORIXÁS BÍBLICOS

Se orixá for entendido como um padrão simbólico, arquétipo ou modelo de conduta e comportamento podemos falar na existência de orixás bíblicos.

O leitor cristão estarrecido pergunta: mas o que tem a ver Moisés com Ogum? Ou Salomão e Oxalá? Ossãe e o profeta Daniel?

Dependendo do ponto de vista pode ter uma relação analógica. Assim, o líder militarista Moisés em muito se parece com os arroubos do colérico orixá da guerra iorubano. Ou o sábio Rei Salomão se assemelha ao pacato orixá sincretizado com Jesus Cristo pelas práticas do folclore dos escravos baianos ou o silencioso e prudente orixá das ervas pode ser assemelhado ao fiel e desprendido profeta Daniel. Tudo vai depender de quem realmente busca pesquisar sem concepções preestabelecidas.

Inicialmente comparar a cultura africana iorubana (matriz do candomblé baiano, da macumba pernambucana, da pajelança amazonense, da umbanda carioca, da santeria cubana, do voodu hatiano etc.) com a cultura semita da Palestina de Moisés e Davi pode soar forçado. E é compreensível. Afinal há muitas diferenças geográficas e temporais entre ambas. Pois enquanto os iorubanos-nagôs, habitantes de florestas abundantes em caça e pesca, conceberam um ser supremo, um criador do universo generoso e tolerante (Olorum ou Zambi), os hebreus, habitantes de desertos famélicos, conceberam um Deus rancoroso e sanguinário que os vingasse dos inúmeros cativeiros aos quais o povo hebreu esteve sempre submetido (o cativeiro egípcio, persa, babilônico, romano). Deste modo, cabe ao antropólogo e ao historiador reconhecer semelhanças entre culturas diferentes.

O que há de semelhante entre os cultos matrifocais da África subsaariana e os cultos patriarcais do oriente médio (judaísmo, cristianismo e islamismo)? Esta é uma questão muito complexa, que exigirá do leitor muita reflexão e paciência.

O Judaísmo surgido há quatro mil anos atrás é uma expressão típica do período neolítico, quando o homem deixou de ser nômade e coletor, descobriu a agricultura, inventou a propriedade privada e o seu efeito colateral mais violento e devastador: a escravidão. O Judaísmo é, sobretudo, uma expressão da transição do período paleolítico, em que a terra era de todos (caracterizado por Karl Marx como o comunismo tribal) e cabia à mulher idosa a transmissão dos saberes necessários à sobrevivência da tribo ao período neolítico, quando as tribos hebréias passaram a se aglutinar em torno de homens carismáticos e sábios (os patriarcas) com propósitos imperialistas e belicistas.

Por coincidência, algo semelhante ocorre com os cultos animistas e fetichistas da África na passagem da economia centrada na figura da mãe (matriarcado) para a economia centrada na figura do pai (patriarcado). Ou seja, os maridos que no paleolítico tinham uma função coadjuvante em face de uma natureza generosa em alimentos e recursos naturais, passam a ter, no Neolítico, uma função protagonista em face de uma súbita escassez material com o aumento populacional. Deste modo, os homens de companheiros solidários dos filhos e da esposa que domina os segredos das plantas, passam a ser os patriarcas opressores da mulher, de outros homens de outras tribos vencidas em guerras territoriais (escravos) e dos homossexuais, encarados como uma ameaça aos seus propósitos de expansão populacional. Assim, vemos o culto às divindades femininas (Yemanjá, Nanã, Oxum) serem substituídos pelo culto às divindades masculinas (Ogum, Xangô, Exu).

DEVEM-SE CULTUAR ORIXÁS?

Para o Bispo Edir Macedo o culto aos orixás, que ele chama de espiritismo “é uma verdadeira fábrica de loucos” p. 97.

E aí perguntamos: por que será que os hospitais psiquiátricos têm pacientes espíritas, umbandistas, católicos, ateus e também estão cheios de crentes pentecostais?

A doença mental não é privilégio dessa ou daquela religião. Pode acometer qualquer pessoa de qualquer idade, cor, classe social, grau de instrução, preferência política, religiosa e sexual.

A doença mental geradora de fenômenos espíritas (visão de vultos, vozes, dores de cabeça, nervosismo, depressão, idéias suicidas) existe e precisa ser diagnosticada e tratada.

Com o avanço das tecnologias computacionais, ramos recentes como a Neurociência poderão cada vez mais desvendar o que há por trás dos ditos fenômenos mediúnicos.

O próprio Bispo Macedo reconhece a força do cérebro humano:

“O homem, como já afirmamos, é o alvo principal dos demônios, pois criado à imagem e semelhança do Altíssimo, tem a faculdade de se expressar através dos cinco (ou seis) sentidos que o fazem distinto de todos os animais” p.21.

Deste modo, Macedo reconhece a existência do sexto sentido, também chamado em Parapsicologia de PES – Percepção Extra Sensorial.

É com ela que as pessoas pensam ver vultos, fantasmas de antepassados, parentes, os “encantados” da umbanda e as “elebaras” da quimbanda.

Em Psiquiatria alucinação é a percepção sem objeto. Ou seja, a pessoa acorda de madrugada e vê um homem todo vestido de preto saindo do banheiro e vê um escorpião negro de 50 cm na cabeceira da cama. Como é possível alguém ver um homem vestido de preto na escuridão do quarto? Simples. É a imaginação da pessoa que projetou o homem de preto ou o escorpião negro que lhe aterrorizou. A pessoa levanta, acende a luz e tanto o homem quanto o escorpião gigante desapareceu por encanto. Ou seja, homem e escorpião não existem. Mas por que aparecem? Simples. O escorpião e o homem de preto fazem parte do imaginário de quem os viu.

O imaginário humano é muito poderoso e criativo. Assim como ele criou os querubins e serafins também criou os exus e elebaras. Basta ir numa livraria católica para veres simpáticos serafins e querubins de resina ou ir a uma loja de umbanda ver medonhos e vermelhos exus e pombas-gira de gesso. Mas a pergunta é: anjo ou exu existem?

A pergunta é difícil. Porque o que é existir? Será que só existe aquilo que ocupa lugar no espaço (comprimento, largura e altura)? E como poderíamos medir, mensurar coisas inquantificáveis como, por exemplo, o amor, o ódio, a inveja, o ciúme, a compaixão?

Tudo aquilo que não pode ser de alguma forma mensurado é abstrato. A energia elétrica - existente desde o começo do cosmos e só descoberta por Benjamim Franklin no século XVIII - que não vemos, nem cheiramos; no entanto, pode ser medida e manipulada por instrumentos de precisão num laboratório de Física. Portanto, a energia elétrica por mais invisível que seja é real e concreta. O mesmo não ocorre com os chamados fenômenos espirituais.

A espiritualidade não é concreta, é abstrata. Ou dito de outro modo, é extra-sensorial, transcendental.

Voltando ao exemplo da livraria católica e da loja de umbanda. Os anjinhos de resina e os exus de gesso foram feitos por artesãos a partir de algum dado da realidade que nos cerca. Ou seja, passou de uma imaterialidade espiritual a materialidade da resina, do gesso e da tinta que são corroídas pela ação do tempo.

De onde os ditos médiuns videntes tiram os seus fotogramas cerebrais? Ou de onde saem as visões que afligem crianças impressionadas com histórias de terror contadas pelo avô?

Tudo é produto do cérebro humano, essa máquina maravilhosa e delicada criada por Deus. Uma máquina que produz o remédio e o veneno, a bola de encher e a bala dos 38.

Cultuar orixá ou cultuar Jesus Cristo ou cultuar os dois juntos depende da escolha e do grau consciencial de cada um.

Eu, particularmente, estudo os Orixás (como também estudo a Bíblia Sagrada), mas não sinto necessidade de oferecer farofa e charutos para eles.

O Bispo Edir Macedo optou por não cultuá-los – e isso é um direito dele, visto que vivemos num Estado Democrático de Direito – embora a liturgia de sua igreja se aproprie aqui e ali, da linguagem e das superstições da Umbanda (ex. sabonete do descarrego, tocar no manto do Pai das luzes, o amuleto mezuzah...) enfim, tudo muito estranho para quem critica ferozmente o fetichismo.

Mestrando em Letras pela U. F. C.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

ESTRATÉGIAS DE LEGITIMAÇÃO EM LIVROS DE UMBANDA


ESTRATÉGIAS DE LEGITIMAÇÃO EM LIVROS DE UMBANDA
Charles Odevan Xavier

Este estudo pretende analisar as estratégias discursivas de legitimação utilizadas por autores umbandistas.

Utilizamos um "corpus" composto por cinco livros publicadas nas décadas de 40, 50, 60 e 70. Para não congestionar o fluxo informacional do leitor, diremos o nome da obra no momento em formos analisar ou flagrar uma dada estratégia.

Este estudo justifica-se pela necessidade que temos de perceber: como certos critérios de edição, paginação, diagramação e, principalmente, de "prefaciação" foram utilizadas pelos autores umbandistas. E saber em que medida essa ou aquela estratégia discursiva flagra, sinaliza ou comunica a alta ou baixa auto-estima do escritor umbandista - o qual escreve sobre um culto popular visto pejorativamente por autores "sérios" ou de cultos "mais nobres".

Para começar nossa investigação iniciamos pela obra de Candido Emanuel Felix "A Cartilha da umbanda" - Rio de Janeiro: Editora Eco, 1965. O nome da obra 'cartilha' - um termo do universo escolar - revela a estratégia que o autor utilizou para legitimar sua obra. Ou seja, Candido Emanuel Felix deseja que seu pequeno, mas substancioso livro (144 páginas) seja tomado pelo leitor culto como um micro-manual para o adepto de Umbanda. O autor escolheu a metodologia da pergunta e resposta, não por acaso técnica já consagrada pelo "Livro dos Espíritos" de Allan Kardec ou pelo estilo do espírito Ramatis. No final de sua "cartilha" o autor apresenta uma série de orações aos orixás, mas utilizando de nomes de santos católicos. Nisto o escritor revela a dependência intelectual com o culto católico, que muito se percebe até nos altares (congás) da umbanda popular ainda hoje pejada por imagens de santos católicos.

No livro de Antonio Alves Teixeira (Neto) "Umbanda e suas engiras: umbandismo" - Rio de Janeiro: Editora Espiritualista, 1969; vemos a foto do escritor (um mulato de cabelo penteado e usando paletó); além disso o editor achou importante informar que o escritor em questão, não só publicou opúsculos e livros de umbanda, mas também livros sobre tabuada, noções elementares de aritmética e de que o autor é professor diplomado e membro da Academia de Letras do Vale do Paraíba. Ou seja, inferimos, pelo que foi enunciado, que se Antonio Alves Teixeira fosse um pedreiro ou um engraxate o editor não teria publicado a obra.

O livro mostra também fotos dos médiuns em impecáveis trajes formais, paletós, vestidos e cabelo cortado. Ou seja, quanto mais "esbranquiçado", urbanizado melhor. Nada de mostrar pessoas "incorporadas" por pretos-velhos analfabetos e pés descalços.

No livro de AB'D' Ruanda "Umbanda (catecismo)" - 3ª edição. Rio de Janeiro: Aurora, 1954; o próprio subtítulo já evoca o universo discursivo do qual o autor não conseguiu se libertar: a igreja católica. O autor muito preso aos lexemas católicos cria a partir deles extravagâncias do tipo: pontos rezados, credo. mandamentos de umbanda e sacramentos de umbanda).

A obra de Alfredo Alcântara "Umbanda em Julgamento" (o original não informa os créditos) é a que revela mais claramente essa insegurança, essse problema de identidade e de subserviência do escritor umbandista. O livro é apresentado por um escritor espírita kardecista e dois médicos kardecistas. É interessante perceber nome de médicos julgando uma obra umbandista, pois se sabe que por muitos antos a medicina oficial menosprezou o saber da "medicina" umbandista, considerada como responsável por danos e enlouquecimento de pacientes.

Para concluir, pensamos que os autores umbandistas - sejam utilizando de metodologias escolares-livrescas, vocabulário católico ou usando o aval kardecista - foram e são vítimas de uma ignorância em relação ao próprio credo que professa. A umbanda é rica e complexa (basta ler um WW da Mata e Silva ou um Rivas Neto) e não precisa está pedindo esmolas ou apadrinhamento de ninguém.

Mestrando em Letras pela UFC

BIBLIOTECA E CÂNONE DE UMBANDA


BIBLIOTECA E CÂNONE DA UMBANDA
Charles Odevan Xavier

Este estudo pretende analisar o acervo da Biblioteca da Cabana Luz do Congo – situada na Rua Gonçalves Lêdo, 1779 no bairro Piedade em Fortaleza – no sentido de buscar saber quais são os livros canônicos e quais seriam os livros proscritos da Umbanda, se é que eles existem.

SOBRE O ACERVO

O acervo da Cabana Luz do Congo foi organizado pelo pai de Santo da casa, Francisco Antonio dos Santos (pai Didi), hoje falecido, no ano de 1968. Parte do acervo foi comprado e outra parte foi doada ao longo dos anos, segundo informou o filho, Julio Francisco dos Santos, responsável pelo espólio do pai e pela adiministração executiva e financeira do Centro.

Seu Júlio informou que não há uma estatística de quantos pessoas utilizaram ou utilizam o acervo ao longo dos anos, que este tipo de informação se perdeu com a morte do pai. O que ele sabe informar com absoluta certeza, é de que o acervo atrai mais a atenção de pesquisadores das Universidades, do que propriamente aos frequentadores e dirigentes da casa. Este dado é grave, quando pensamos no perfil sócio-econômico dos frequentadores e dirigentes da casa: pessoas escolarizadas da classe média, funcionários públicos, profissionais liberais, comerciantes e empresários. Ou seja, os umbandistas cearenses não gostam de ler, pelo menos, na maioria dos casos.

Diante desse dado perguntei qual era a função de uma biblioteca que não desperta interesse. Seu Júlio respondeu que a intenção do seu pai ao compar do próprio bolso, reunir e organizar o acervo, era a de difundir uma umbanda esotérica iniciática em Fortaleza – corrente da qual a Cabana Luz do Congo é o único lugar na capital cearense, que professa este tipo de umbanda.

O acervo se divide por assuntos, sendo eles: Umbanda, Quimbanda, Kardecismo, Esoterismo, Racionalismo Cristão, Pietro Ubaldi, Budismo, História, Rosa Cruz, Filosofia, Chama Sagrada, Yoga, Diversos e duas prateleiras cheias de livros protestantes e católicos.

É interessante perceber a presença de livros do cânone protestante e católico numa casa de Umbanda. Pude conferir nas duas prateleiras obras evangélicas da Bible Students Association, dos Girões e da Casa Publicadora Brasileira, em títulos como as traduções de João Ferreira de Almeida do Novo Testamento e exegetas como E. G. White; como também, pude conferir títulos de duas importantes editoras católicas: Vozes e Paulinas.

Tal informação nos leva a supor que Pai Didi queria promover um diálogo inter-religioso, antes mesmo da moda ecumenista da década de 70 e um debate científico, que houve enquanto o mesmo dirigiu grupos de estudos, antes de ser vitimado pela velhice e doença.

PARA QUE SERVE UM LIVRO DE UMBANDA?

Muitos poderão perguntar qual é a utilidade de um livro umbandista, como por exemplo, um amigo da faculdade ao me ver com um livro, cuja capa tinha impresso a palavra “umbanda”, perguntou se era um manual de feitiços.

É curioso de que alguém ao ver um indivíduo com a Bíblia Sagrada, não faz a mesma pergunta, mesmo que o Antigo Testamento tenha uma coleção de feitiços feitos por Moisés para destruir os povos inimigos.

Assim, somos levados a perceber o caráter eminentemente prático do culto umbandista no imaginário da população brasileira, pois como mais de uma vez afirmaram certas autoridades do espiritismo kardecista, a Umbanda seria um mediunismo sem doutrina.

Analisando o acervo da Cabana Luz do Congo, podemos responder parte das perguntas feitas por leitores que nunca leram livros de Umbanda.

Na obra “A Cartilha de Umbanda” de Candido Emanuel Felix,publicada no Rio de Janeiro em 1965 pela editora Eco, temos perguntas do tipo: o que é umbanda? Pode-se aceitar Umbanda como religião? Como defenir o medium de incorporação? Como pode o medium trabalhar numa tenda? Entre outras. Deste modo, um livro de umbanda serve para divulgar aspectos doutrinários e não apenas limitar-se a conjuntos de descrições de feitiços ou de oferendas e receitas culinárias para este ou aquele orixá. Ou seja, a Umbanda, contrariando o diagnóstico de espíritas kardecistas apressados e desinformados, tem doutrina sim.

QUAL O CARÁTER DA DOUTRINA UMBANDISTA?

A doutrina umbandista existe e foi reunida por WW da Matta e Silva, em dez livros publicados pela Editora Freitas Bastos entre os anos das décadas de 60, 70 e 80. E pode ser conferida também nas obras do pai de santo e médico F. Rivas Neto e do poeta Roger Feraudy.

O leitor mais atento perceberá o caráter mestiço da doutrina umbandista, ao reunir influências afrodescendentes, indígenas, católicas, judaicas, islâmicas, kardecistas, rosa-cruzes, maçônicas e da Teosofia de Madame Blavatsky. Pois como o culto, a doutrina umbandista é uma espécie de síntese religiosa de todos os povos que existem na terra. E por ser síntese, ela é complexa e profunda. Tal fato talvez afastem os leitores umbandistas, que receiosos de nada entenderem ou acabarem confusos com esse cipoal de referências, acabam não lendo as obras que com tanto esforço Matta e Silva e seus discípulos sistematizaram.

EXISTE UM CÂNONE UMBANDISTA?

Geralmetnte quando se pensa em livros da tradição critã a noção de cânone pode vir à baila. Pois se sabe que os livros canônicos seriam aqueles aceitos e reconhecidos pelas altas hierarquias da Igreja Cristã. Já os apócrifos ou proscritos seriam aqueles livros que circularam na época de Cristo e foram – parte deles – descobertos nas cavernas salgadas de Qumram no Mar Morto em 1948. Estes livros foram e são mal vistos pela Igreja Cristã por revelarem dados e narrativas inconvenientes, como a suposta personalidade travessa e malvada da infância de Jesus Cristo ou o seu suposto casamento cheio de filhos com Maria Madalena.

Entretanto, hoje parte da Igreja já sabe conviver com os conteúdos estranhos e extravagantes desses livros. Tanto que já é possível encontrá-los nas livrarias católicas.

Em se tratando da Umbanda, a noção de cânone teria mais um fundo literário do que propriamente teológico, pois ao contrário da Igreja Cristã, a Umbanda não dispõe de um clero organizado e hierarquizado a policiar seus escritores. Assim, os livros do medium WW da Matta e Silva seriam canônicos no sentido de bem escritos e sistematizados.

Por isso, fica difícil de estabelecer um critério semelhante ao da Igreja Cristã, para tratar de supostos livros proscritos dentro do universo editorial umbandista.

Entretanto, como venho lendo o acervo da Cabana Luz do Congo desde o ano de 2002, posso falar não propriamente em livros proscritos, mas em livros toscos e mal escritos em profusão.

São livros com baixa fundamentação teórica, hesitantes e confusos.

Seriam aquelas obras que a partir do índice ou da ausência dele, dedicam-se mais aos aspectos litúrgicos ou ritualísticos da umbanda, do que propriamente em devassar suas origens e estabelecer parâmetros doutrinários.

Porém, tudo aqui é novo como sabiamente comentou o ogã da Cabana Luz do Congo. Ele mesmo nunca tinha parado para pensar na possibilidade de livros proscritos, até pelo fato inegável de que os praticantes de Umbanda não se interessam nem mesmo pelos livros bem feitos.

Assim, para concluir percebemos que nossa investigação apenas começou e partindo da constatação de que o público leitor umbandista prefere mais, quando se dispõe, a ler pontos cantados no intuito de decorá-los ou receitas de banhos de descarga, estaremos mexendo não apenas com problemas de uma comunidade religiosa específica, mas com o terrível hábito brasileiro de não gostar de ler.

Mestrando em Letras pela UFC.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

BALANÇO DO ANARQUISMO DE FORTALEZA (2002-2008)


Nesse estudo pretendo me colocar em relação ao anarquismo contemporâneo, num cenário de capitalismo transnacional tecnotrônico e cibernético e sua relação com a cidade onde moro, Fortaleza, capital do Ceará.

Comecei a ter contato mais direto com a cena anarquista da cidade de Fortaleza, em 2002 por volta da atuação da Assembléia de Anticapitalistas contra o BID (na série de ações que organizamos na cidade, da qual nomeamos como o ANTIBID). Antes o meu contato com o anarquismo se resumia a leituras fragmentadas de autores anarquistas na Internet. Mas em 2002 eu não me assumia anarquista ainda. Eu me reinvindicava autonomista, fruto das leituras sobre as greves selvagens feitas por autonomistas italianos na década de 70.

O que pude perceber em 2002 nos bastidores do ANTIBID em relação aos anarquistas era a grande diversidade e pluralidade de concepções, estratégias de luta e metodologias empregadas pela militância anarquista.

Também pude perceber uma relação de certo ressentimento ou constrangimento, com os chamados marxistas não-autoritários. Ou seja, como se houvesse por parte desses anarquistas uma necessidade de demarcação de território, uma certa busca por uma hegemonia.Tanto que a Assembléia de Anticapitalistas contra o BID acabou se dissolvendo depois de um certo tempo. Parte das pessoas voltou a se reunir meses depois no chamado Comitê do Voto Nulo, no mesmo ano.

Em 2003 por forças das circunstâncias e por causa da afinidade e amizade com o pessoal do Coletivo Ruptura e do coletivo anarco-feminista LUA, passei a ter uma interlocução e atuação no meio anarquista, reinvindicando-me como tal.Houve todo um lento processo de construção da II Semana de Cultura Libertária, que envolveu oficinas preparatórias para o encontro, pedágios para fazer um caixa pro evento, pintura de painéis nas principais ruas de Fortaleza.Em todo esse processo fui aprendendo e entendendo como era o anarquismo na prática, no cotidiano, como se dava a autogestão - um dos princípios norteadores de qualquer prática anarquista.

Na II Semana de Cultura Libertária, realizada nas dependências do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará - UECE, propriamente dita, pude ver a diversidade das concepções anarquistas e até da incongruência entre elas.

Pude perceber desde uma postura burguesa de um anarquismo meramente acadêmico e livresco até um anarquismo visceralmente empenhado na transformação da sociedade em que vivemos.

O evento de 2003 teve como saldo positivo dar visibilidade a cena anarquista de Fortaleza, tanto que percebi até a presença de trotsquistas e mandelistas da Democracia Socialista (uma corrente da esquerda capitalista do PT) entre as pessoas do auditório do C.H.

Em 2004 foi a vez dos anarquistas e anarcopunks se juntarem temporariamente com os emancipacionistas do movimento Crítica Radical, por volta do acampamento contra o PASSECARD na Praça do Ferreira.Foi um momento de muita aprendizagem para a militância anarquista/anarcopunk.Pude perceber a fragilidade de retórica por parte de alguns anarcopunks em face da eloquência arrogante e pedante de alguns membros do movimento Crítica Radical, muito habilidosos na digestão da chamada Teoria do Valor do comunista Karl Marx.

Mas a principal realização da cena anarquista/anarcopunk de Fortaleza em 2004 foi a inauguração do Espaço Cultural Comuna Libertária, no bairro da Parangaba, numa região pobre de Fortaleza.

O Espaço Culural Comuna Libertária - o ECCL - ficava no prédio alugado de uma antiga escola. Era um prédio enorme com diversos compartimentos.Conseguimos reunir uma biblioteca com mais de 200 títulos de livros, um centro de documentação anarquista/anarcopunk( arquivo de zines, revistas, cartazes, panfletos e folders de diversas partes do mundo). O ECCL tinha um calendário de atividades mensais como mini-cursos, palestras, video-debates, grupos de estudo e oficinas temáticas.Houve projetos mais longos como Historiando a Parangaba com alunos pequenos de uma escola públicado bairro, em que o historiador anarquista João Paulo fez um levantamento com estes alunos, sobre as origens indígenas e caboclas do antigo aldeamento da Porangaba; o curso de Esperanto, o curso de teatro e dança com a militante Bartira; até projetos mais rápidos como uma oficina de papel reciclado no meio da praça da Parangaba, que agradou muito os moradores locais até então desconfiados com a suposta aparência agressiva e esquisita dos anarcopunks ou a apresentação dos companheiros argentinos do Circo Nômade da Argentina na mesma praça, que agradou a criançada presente e seus pais.

Entretanto, nem tudo foi tranquilo na trajetória do ECCL.O Coletivo Gestor do ECCL cometeu alguns vacilos com os parcos recursos financeiros adquiridos pela militância - fosse através de campanha financeiras ou através de doações dos coletivos anarquistas e anticapitalistas americanos e/ou europeus. Por exemplo, o pessoal gastou muito dinheiro com a construção do estúdio musical e no final das contas o estúdio não ficou pronto (o dinheiro não foi suficiente) nem se comprou uma aparelhagem para as apresentações musicais, ou como se diz no sertão cearense: nem mel nem cumbuca. O saldo disso é que ainda hoje a cena anarcopunk local precisa alugar aparelhagem quando quer fazer algum evento para arrecadar fundos, quando poderia ter autonomia nesse aspecto.

Outro problema que acabou gerando a tão comentada cisão entre anarquistas e anarcopunks foi o descomprimento de acordos. Um espaço anarquista funciona pelo princípio da autogestão, ou seja, nele todos têm poder de decisão; ninguém acumula funções e os cargos, quando existem, são temporários.Tudo é decidido coletivamente, assembleiariamente.Entretanto, para que a coisa funcione bem é necessário que todos os participantes estejam conscientes dos acordos estabelecidos entre as partes. Parece, no meu entender, que alguns anarcopunks não entenderam que o ECCL não era uma moradia.Por isso, houve os conflitos entre os anarquistas que eram contrários a permanência de pessoas no espaço depois das GIG's - eventos artísticos/musicais de natureza política para arrecadar fundos para as atividades gratuitas do espaço) e que, no entender deles, ficavam gastando água, tinta, telando camisas e PATCHS na serigrafia, entupindo telas, entre outras despesas desnecessárias; os anarcopunks, por sua vez, têm outra versão do caso.

O saldo desse "conflito" foi a cisão do movimento anarquita local. O Coletivo Comuna Libertária cindiu-se em dois.Os anarquistas de um lado em torno do Coletivo Ruptura (que voltou a existir) e os anarcopunks de outro em torno do Coletivo Confronto Anarcopunk. A partir dessa cisão os anarcopunks passaram a sondar um lugar na periferia de Fortaleza, para alugar e fazer sua sede própria.

O ECCL ainda durou mais um ano, dessa vez alugando o espaço junto com o pessoal da capoeira angola do grupo GCAP. O Espaço abrigou uma oficina de jornalismo ministrada por dois estudantes do Curso de Comunicação Social da UFC e passou a ser a sede provisória do Movimento Passe Livre - MPL. Mas o espaço agonizava financeiramente. O aluguel de R$ 320 reais era caro demais para uma militância pequena e pobre.

Em 2006 o Coletivo Confronto Anarcopunk encontrou uma casa de vila num bairro da periferia de Fortaleza (que não informo por questão de segurança).Como era perto da minha casa passei a frequentar o espaço, contribuindo financeiramente e politicamente, doando livros e revistas para a biblioteca e o centro de documentação do espaço.

Até então tinha uma visão muito crítica de alguns aspectos da cultura punk. Tinha uma visão muito simplista do hardcore, que eu entendia como sendo apenas mais uma sonoridade barulhenta entre outras. Só mais tarde com a convivência com o pessoal é que entendi que o hardcore é uma atitude política.

Devido a um certo ranço academicista sempre dei mais valor aos livros e revistas, do que aos zines, por vê-los como mal-feitos e ilegíveis.Penso que só com o tempo é que irei dar algum valor aos zines, a despeito de usar zines anarcopunks com meus alunos da rede municipal.Sem falar que alguns zines são verdadeiras obras de arte.

A casa do Confronto Anarcopunk difere muito do ECCL. Primeiro porque não é um centro cultural anarquista mas uma moradia anarquista/sede política do movimento.Por ser uma casa de vila é pequena demais para ter os eventos que tinha no Espaço da Comuna Libertária. A despeito de existir há quase três anos até agora não foi feio um trabalho de inserção social consistente na comunidade em que está inserida.Entretanto, a pankarada é bem vista e bem tratada pelos moradores da vila.Alguns vizinhos são tão solidários que chegam a compartilhar o pouco alimento que possuem conosco.

A criançada da vila não tem medo de entrar no espaço apesar de ser avisada pelos pais, de que os punks são ateus.

A arquitetura simples da casa se divide na sala de reuniões; um quarto, onde fica a serigrafia, a biblioteca e o centro de documentação e onde dormem as pessoas que moram no espaço ou que visitam Fortaleza;a cozinha em que cultivamos o hábito da reciclagem de legumes e verduras coletados em feiras livres da região (tentamos ao máximo praticar o freeganismo), um banheiro e uma pequena área de serviço.Os móveis do espaço foram doados ou coletados no lixo, pois tentamos ao máximo negar a sociedade de consumo.

A casa funciona na base da autogestão e todos são convidados a criarem suas próprias iniciativas; ou seja, se há louça suja ninguém deve esperar que o outro lave.Se o banheiro está sujo qualquer um pode lavá-lo, tanto faz se é um engenheiro, médico, advogado anarquista ou um pedreiro, catador de lixo ou artesão que vende pulseira.

Recentemente, houve o Encontro Nacional Anarcopunk no Salgado (distrito de Pentecostes - a três horas de viagem de Fortaleza). Eu não fui, respeitando a decisão da cena local que eu não deveria ir, devido aos problemas decorrentes do artigo que fiz comentando o uso de drogas na cena anarcopunk local.

Não sei ainda o que foi deliberado nesse encontro, por conta de não ter tido acesso ainda ao relatório do mesmo.

Um dos temas centrais do Encontro foi: Que anarquismo queremos? Como não participei do encontro não sei como se deu a discussão em torno dessa questão, porém devo pressumir, pelo nível de esclarecimento dos anarcopunks que vieram de várias partes do Brasil a que tive acesso, que deve ter sido uma discussão muito rica, ainda que inicial do tema.

Não sei quais são as perspectivas da casa do Confronto Anarcopunk em 2008. Temo um esvaziamento como ocorreu com a Comuna Libertária, já que muita gente pretende deixar a cidade e ir de bicicleta para o sul do país, onde irá se realizar em Julho o Encontro Internacional Anarcopunk.

Não sei se os poucos militantes que vão ficar em Fortaleza vão conseguir segurar a peteca de pagar o aluguel da casa e ainda dar um gás na atuação anarcopunk.

Outra questão delicada que aproveito para inserir nesse estudo é a questão da legalidade de nossa sede.Esclareço: a sede foi alugada à uma imobiliária, mas legalmente não existimos.Em termos legais somos apenas uma residência. Entretanto, não nos resumimos a uma moradia, somos um centro de formação política.Porém, como não temos pessoa jurídica não podemos ter a chamada utilidade pública.Proponho para o debate não só da cena local, como de outras cenas da posssibilidade de adquirirmos um CNPJ.Tal coisa tem vantagens e desvantagens.Com um registro em cartório poderíamos pleitiar um recurso junto ao BNDS para projetos sociais com a comunidade.Por exemplo, já que a casa tem serigrafia poderíamos fazer oficinas de serigrafia regulares com a criançada da vila.Ou já que há biblioteca na casa, eu poderia ministrar aulas de redação para as pessoas interessadas da comunidade.Seria uma forma de atrair mais pessoas para o anarquismo além de conseguir um caixa para as atividades da casa.A desvantagem é que vivemos numa sociedade de controle, como diz o Gilles Deleuze. Então seria mais fácil, através dessa documentação,de sermos monitorados e vigiados pelo Estado, do qual nos opomos. Haveria então um risco de se perder a autonomia conquistada até agora.

Fica a proposta para ser discutida e amadurecida.Antes de concluir, gostariar de dizer o que penso dos anarquistas locais.A galera tem emprego, tem grana e não aluga uma sede.Os anarcopunks são fudidos, desempregados ( a grande maioria), vivem de bico, mas estão conseguindo garantir o funcionamento de uma sede.Espero que isso sirva para alguma reflexão.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A ARTE PÓS-MODERNA


A ARTE PÓS-MODERNA

O texto discute os supostos impasses do homem pós-moderno e sua expressão plástica.

A ARTE PÓS-MODERNA Charles Odevan Xavier Este texto tem como mote a composição “Bienal” de Zeca Baleiro do Cd Imbolá” (MZA).Nela o compositor maranhense disserta com ironia e bom humor sobre a temática da 23ª Bienal Internacional das Artes Plásticas de São Paulo (1996): “Desmaterialização da obra de arte no fim do milénio”. Ou seja, em que medida o quadro contemporâneo transcende a limitação da moldura. Ou o que sinaliza a crítica ao suporte tradicional. Assim, a pintura pode sair da tela e/ou o espectador é convidado a entrar na escultura. A arte moderna tendia à militância política. Procurava cantar as glórias da tecnociência como no caso do Futurismo Italiano, ou, pelo contrário, procurava denunciar o cenário caótico da modernidade urbana do capitalismo industrial, como nas cores fortes do cubismo e do fauvismo ou na cinzenta deformação da realidade do expressionismo alemão. A arte pós - moderna – chamada, acertadamente, por alguns teóricos de ‘arte pós - vanguarda’- renuncia a qualquer messianismo. Não quer salvar a raça humana do colapso da modernização como disse Robert Kurz ou propor qualquer utopia capaz de suplantar a barbárie resultante desse colapso. Desse modo, o artista pós - moderno vê-se num pêndulo entre o niilismo sinistro da morte de Deus e o narcisismo hedonista e cínico da apologia do consumo. Isso se traduz pictoricamente em negativos fotográficos corroídos por ácido justapostos na parede ou nas latas de sopa Campbells de Andy Wahrol. A arte pós - moderna aponta para um impasse do homem pós - moderno: que caminho iremos tomar daqui para frente? Num contexto em que cada vez mais pessoas se tornam coisas e coisas se tornam pessoas, como Marx previa na sua crítica ao fetichismo da mercadoria, o que propor para raça humana? Será que ainda existem propostas plausíveis ou viáveis? A impressão que se tem ao visitar as exposições do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar (Fortaleza - Brasil) é de que o homem não tem mais nenhum projeto aglutinante e de que a arte atual é, ou seria, a própria celebração desse atomismo. Há um aspecto, entretanto, que tem de ser evidenciado na arte contemporânea e sua tendência à ruptura com o suporte. Seria o carácter não - comercial desta arte. Qual burguês irá comprar as esponjas de aço enferrujadas da artista - plástica gaúcha Elida Tessler? E isso é muito bom, numa época em que os executivos americanos dizem tudo estar à venda, inclusive, a dignidade humana. Portanto, percebo um potencial subversivo na arte atual. Que é o de revelar a insustentabilidade do projeto civilizatório moderno. Negando a sociedade produtora de mercadorias e sua sociabilidade viciada quando produz “trambolhos” que não podem ser empendurados na parede ou que sujariam as estantes dos apartamentos burgueses. Mestrando em Letras pela UFC.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007


Estou só
não sou compreendido
embora fale a língua
do país onde moro.

Não tenho ninguém
em quem dar um
abraço
mais íntimo

Não sentirei os pêlos
de nenhum corpo

e me acompanho de livros

COTIDIANO ESCOLAR


Enquanto não recebo o pagamento
desespero-me em risos involuntários
dentro de ônibus

Enervo-me com alunos adolescentes
que não estudam

encanto-me com senhores alunos
interessados em aprender

e recebo elogios
pela língua portuguesa