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domingo, 6 de novembro de 2011

RESPOSTA AO MACARRÃO:A CRÍTICA DO POLITICISMO SEGUNDO A PERSPECTIVA ANARCO-INSURRECIONAL PRIMITIVISTA




RESPOSTA AO MACARRÃO: A CRITICA DO POLITICISMO SEGUNDO A PERSPECTIVA ANARCO-INSURRECIONAL PRIMITIVISTA
Charles Odevan Xavier

“(...)la única respuesta contraria al trabajo es la de destruirlo, procurando una propia proyectualidad, un propio futuro, una propia identidad social del todo nueva y contrapuesta a los intentos de nadificación puestos em marcha por el capitalismo postindustrial.”

Alfredo Maria Bonanno, anarco-insurreicionista italiano.

“A medida para avaliar a importância de uma revolta generalizada não é o conflito armado, mas ao contrário, é a extensão da paralisia da economia, da normalidade. Se os estudantes continuarem a estudar, se os trabalhadores e funcionários de escritório continuarem a trabalhar, o desempregado unicamente se esforçando em arranjar emprego, então a mudança não será possível.”
Do ensaio “Anarquismo Insurrecionário: Organizando para o ataque!” de autoria anónima.


Este ensaio pretende ser uma resposta sóbria a “Carta Aberta de Desligamento da ORL – Organização da Resistência Libertaria” do ativista anarquista Macarrão.

Para tanto consultamos diversas fontes bibliográficas.

Entre elas o “Dicionário de Política” de Norberto, BOBBIO, Nicola, MATTEUCCI e Gianfranco, PASQUINO - Traduçao: Carmen C. Varriale, Gaetano Lo Mônaco, João Ferreira, Luís Guerreiro Pinto Cacais e Renzo Dini – 11ª edição – Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1998.

Consultamos documentos anarco-plataformistas como “Alma e o Corpo: O Bakuninismo e a organização anarquista”. Analisamos a Carta Aberta do militante anarquista Macarrão e os comentários publicados no CMI – Centro de Midia Independente (www.midiaindependente.org)

E lemos tambem a resposta da ORL “A Revolução é imensa mas os homens são infinitamente pequenos”.


Consultamos as obras do anarquista insurrecional italiano, Alfredo Maria Bonanno: “O prazer armado”, “A tensão anarquista”, “Destruyamos el trabajo” e “Movimiento Ficticio e Movimiento Real”.

Lemos o ensaio “Anarquia verde vs. Anarquismo Clássico” publicado pelo coletivo “Green Anarchy”.E o ensaio: “Anarquismo Insurrecionário: Organizando para o ataque!” de autoria anônima.

Também lemos o livro de Anselm Jappe: “Guy Debord” - Traduçao: Iraci C. Polet e Carla Silva Pereira – Lisboa, Antigona, 2008.

Não podemos deixar de mencionar que lemos o curto, mas esclarecedor “Anarco-primitivismo” do anarquista americano John Zerzan publicado pela BPI.

E ouvimos a esclarecedora entrevista de Macarrao para Radio online “Cordel Libertário”

O QUE É POLITICA? O QUE É LUTA?


“Política.
I.. O SIGNIFICADO CLÁSSICO E MODERNO DE POLÍTICA. — Derivado do adjetivo originado de pólis (politikós), que significa tudo o que se refere à cidade e, conseqüentemente, o que é urbano, civil, público, e até mesmo sociável e social, o termo Política se expandiu graças à influência da grande obra de Aristóteles, intitulada Política, que deve ser considerada como o primeiro tratado sobre a natureza, funções e divisão do Estado, e sobre as várias formas de Governo, com a significação mais comum de arte ou ciência do Governo, isto é, de reflexão, não importa se com intenções meramente descritivas ou também normativas, dois aspectos dificilmente discrimináveis, sobre as coisas da cidade. Ocorreu assim desde a origem uma transposição de significado, do conjunto das coisas qualificadas de um certo modo pelo adjetivo "político", para a forma de saber mais ou menos organizado sobre esse mesmo conjunto de coisas: uma transposição não diversa daquela que deu origem a termos como física, estética, ética e, por último, •cibernética. O termo Política foi usado durante séculos para designar principalmente obras dedicadas ao estudo daquela esfera de atividades humanas que se refere de algum modo às coisas do Estado: Política methodice digesta, só para apresentar um exemplo célebre, é o título da obra com que Johannes Althusius (1603) expôs uma das teorias da consociatio publica (o Estado no sentido moderno da palavra), abrangente em seu seio várias formas de consociationes menores. Na época moderna, o termo perdeu seu significado original, substituído pouco a pouco por outras expressões como "ciência do Estado", "doutrina do Estado", "ciência política", "filosofia política", etc, passando a ser comumente usado para indicar a atividade ou conjunto de atividades que, de alguma maneira, têm como termo de referência a pólis, ou seja, o Estado.”
Dicionário de Política – Noberto Bobbio.

“Los anarquistas son enemigos declarados del Estado y de todas las realizaciones institucionales concretas de las que este se dota para controlar y reprimir. Esta declaración de principio, aun con su carácter abstracto, es uno de las características esenciales del anarquismo y nuca ha sido puesta en duda.”
Alfredo Maria Bonanno

Este ensaio é bem temerário porque lida- ou pode lidar – com suscetibilidades e melindres involuntariamente e esta não foi minha intenção, caso ocorra, peço desculpas a todos os possiveis envolvidos.

Mas definitivamente a Carta de Desligamento da ORL do militante anarquista Macarrão merece uma resposta ou serviu como mote de resposta.

Particularmente não tenho nada contra o militante Macarrão, temos relações afetuosas, pelo menos ate agora eu não me excluiu do seu orkut.

Porem, não posso ficar calado aos comentários que Macarrão fez em relação ao que ele chama de “ correntes supostas que não foram citadas porque o objetivo era citar aqueles que entendem que o anarquismo e luta e não quem faz ocupaçao de casa, anda de bicicleta, exibe video e tem uma horta”

O que esta pressuposto aqui no discurso de Macarrao quando na enunciação entende-se que ocupaçao urbana, bicicletada, video-debate e horta orgânica não são lutas? Esta pressuposto uma noção de anarquismo que pauta a UNIPA – União Popular Anarquista e o anarco-plataformismo de organizações russas como “Dielo Truda”.

Macarrão entende essas iniciativas, ou essas correntes - das quais os companheiros anarco-punks do Squatt Toren podem ser a referência - como que infiltradas de “doutrina liberal na luta dos trabalhadores, mal que o anarquismo sofreu, mas que hoje tem a obrigação de superar e caminhar rumo ao horizonte revolucionário para a sociedade sem classes”.

Realmente ele não citou o nome do Squatt Toren, mas como na sinopse da carta ele avisa que irá fazer um balanço do anarquismo cearense recente; para bom entendendor quem acompanha a cena anarquista ou libertária cearense, sabe que o Squatt Toren não se reinvindica anarco-primitivista na sua totalidade, mas é uma comunidade de pessoas e militantes e sujeitos bastante sensível aos textos e obras de autores que o meio anarquista internacional rotulou de anarco-primitivista.

Na Carta, Macarrão não cita o Toren mas cita os anarco-punks em categorizaçoes nada fraternas e faz um balanço da experiência do Espaço Cultural Comuna Libertária que na sua avaliação não fazia muito coisa alem de GIG's.

Macarrão pensa que a Comuna Libertária deveria “organizar a classe trabalhadora contra o patronato almejando o acúmulo de forças para o desenlace revolucionário”, quando se resumia a organizaçao de Seminários, Debates e promoção de GIG's.

Eu tambem ouvi uma entrevista de Macarrão há algum tempo atrás na Radio online “Cordel Libertário” e lá ele faz um balanço interessante da ORL, revelando os momentos mais quentes da organização, como por exemplo, a problemática ocupação do Campus do PICI da UFC com os moradores da favela do Planalto Pici.

Macarrão em sua carta faz um balanço de momentos como o da Frente Popular Ecológica de Fortaleza e Bloco Verde que tentaram impedir a oligarquia dos Jeressaitis de depredarem o mangue do Cocó com a Torre do Iguatemi em 2007.

Esta passagem do anarquismo cearense eu estava acompanhando de muito longe, pois estava com uma serie de problemas pessoais e de saúde.

E também porque a partir de 2006 eu me juntei aos anarco-punks como colaborador da Casa do Confronto Anarco-punk doando revistas, livros e ministrando oficinas de redação para os punks. Entao eu perdi o contato com ex-militantes anarquistas da Comuna Libertaria como JP, Mateus Magao e Vanessa Luana.

Macarrão fala dos meses seguintes a 2007 onde houve ocupações radicalizadas por parte dos estudantes da UFC no REUNI, em sua avaliaçao apenas derrotada politicamente por falta de organização de base.

O ex-ativista da ORL fala em “anarquismo social” que reconhece eu seu interior correntes que nada tem a ver com a “luta de classes” ou que inclue grupos que priorizam o estilo de vida pequeno-burgues.E chama pejorativamente esse tipo de anarquismo de ecletismo.

O ecletismo se traduziria por coisas contraditorias como reinvindicar a primeira internacional e a revolução espanhola sem fazer o devido balanço critico, nas palavras dele.

Macarrão critica a ruptura do pessoal da ORL com o COPOACE – Comitê pro Organização Anarquista no Ceara. Implica com o paradigma da FARJ – Federaçao Anarquista do Rio de Janeiro.

Depois Macarrão fala que é necessário “formação politica para a construção do poder popular”.

Discute qual o papel do anarquismo para a luta de classes.

Quando Macarrão diz que o “proletariado no Brasil se encontra orfão de organismos que possam agregar e articular nacionalmente as lutas” e quando o mesmo lamenta os rumos reformistas da CONLUTAS, ele propõe como panacéia: “cabe hoje iniciar a organização de oposições sindicais, estudantis e populares com o objetivo de criar o duplo poder, necessario para qualquer desenlace revolucionário”. Macarrão fala na necessidade de se criar um “partido”, sim! É esse o termo utilizado: “partido”.E termos maoistas-trostkistas autoritarios como: “massas”.

DO POLITICISMO AO “ORGULHO OPERÀRIO”

“Consideramos como movimiento anarquista ficticio el conjunto de los compañeros que administran una posición de poder dentro del movimiento, que no hacen un preciso trabajo anarquista contribuyendo al crecimiento de la conciencia revolucionaria en las masas, sino que se limitan a presidir las reuniones y congresos, tratando de dirigir a los compañeros más jóvenes o menos preparados hacia lo que ellos consideran los principios indiscutibles del anarquismo. Quedan los otros compañeros que por debilidad o por aquiescencia acaban por adecuarse a las decisiones que son tomadas siempre por las mismas personas. Esos, aunque comprometidos en las luchas concretas desnaturalizan el significado mismo de la necesidad de la delegación y no se ocupan de prepararse de modo tal que válidamente se contrapongan a la «tiranía» del compañero más competente o de más autoridad.”
Alfredo Maria Bonanno

O que há por trás de toda a argumentação de Macarrão? Há o problema epistemológico e ideológico do chamado “orgulho operario”.Enquanto autores anarquistas, como Bob Black, Alfredo Maria Bonanno, e, nao-anarquistas, como Guy Debord, Raoul Vaneigem, Anselm Jappe e Robert Kurz falam em “abolição do trabalho”, o Macarrão, a UNIPA querem “mais trabalho”.

A perspectiva da luta de classes ou luta classicista ou ainda o que chamo de luta politicista contra uma suposta luta “culturalista” (sim, pois foi esse o termo que Macarrao usou na entrevista da Radio Cordel Libertario) no meu parecer é um ponto de vista limitado, pois em um planeta Terra vitimado pela lógica cega da economia de mercado e que por isso tem um colapso de sua biosfera, todos são vitimas: o trabalhador (muito citado no discurso de Macarrao), a maioria desempregada (esquecido por Macarrao) e os patrões ou burgueses.Todos vitimas do colapso da biosfera irredutivelmente.Ou seja a humanidade toda no mesmo barco rumo ao naufrágio.

Pra que lutar por uma inclusão no mundo do trabalho, quando o trabalho morto das máquinas eletrônicas dispensa trabalhadores? Para que tanto insistencia em não deter a crise irrecuperável do capital? Por que não deixar o capital – a acumulação de bens e a hierarquização do trabalho – degolar-se a si proprio? Por que tentar impedir o inevitavel?

Quem precisa de “orgulho operario”, de orgulho laboral, de orgulho de fabrica? O burguês.Pois o que sustenta o capital, a sociedade mercantil, o dinheiro, o valor, a hierarquia e, por último, o Estado: é o Trabalho..É o trabalhador que sustenta todo esse andaime.

E o que propõe Macarrão e a UNIPA ou o anarquismo classico? Manter o andaime.Manter a maquina funcionando.Nós anarco-insurrecionistas primitivistas propomos: emperrar a maquina, derrubar o andaime, para que o edificio rigido do Capital e do Capitalismo desmorone.

Manter o andaime do capital e da maquina do capitalismo funcionando para que tenha migalhas para os trabalhadores é incorrer em erro, já que a manutençao desse “tripalium” tem um custo ambiental como o colapso total da biosfera que já começou vide aquecimento global, desertificaçoes regionais, entre outros cataclimas ecologicos.

O PROBLEMA DO PARADIGMA DA UNIPA, O BAKUNINISMO E DO ANARCO-PLATAFORMISMO

“(...)Pero este movimiento anarquista real no debe asumir ninguna forma de prevalencia sobre las organizaciones del movimiento de los trabajadores y no puede ser administradas por especialistas iluminados capaces de mantenerlas en vida en momentos de cansancio. El punto esencial a no olvidar es que estos famosos momentos de reflujo lo son para el movimiento ficticio de los trabajadores, no para el movimiento real, sometido en todo instante a la presión incansable de la explotación y el genocidio.”
Alfredo Maria Bonanno

“ El proyecto revolucionario anarquista parte del contexto específico de la realidad de las luchas. No es un producto de la minoría, no es elaborado por ésta y exportado al movimiento de los trabajadores, que lo adquiere en bloque o a plazos. El proyecto revolucionario no es ni siquiera una realización acabada en todas sus partes. Los anarquistas no deben imponer su conciencia de minoría revolucionaria a la clase trabajadora. Actuar en este sentido significa, involuntariamente, perpetuar la violencia leninista. Al contrario, participando en el proceso de autoorganización de la masa, trabajando dentro, no como teóricos políticos o especialistas militares, sino como masa, se puede evitar el obstáculo insuperable de la minoría separada que intenta «viajar» hacia la totalidad de la masa, pero no sabe decidirse sobre la metodología a emplear.”
Alfredo Maria Bonanno

“Massa. s.f. Mistura de farinha de trigo ou outra qualquer, com um liquido, de modo que forme pasta; conjunto de partes que foram um todo; substancia mole, pastosa ou pulverizada(...)materia que constitui um corpo, corpo informe(...)pl. Aglomeraçao de gente, o povo”
Dicionario Brasileiro Globo

“A organizaçao das massas e pre-condiçao para a politica revolucionaria”
A Alma e o Corpo, UNIPA

Cada um tem o paradigma, o esquema de referencia que bem entender.Nao sou dono da verdade.Mas identifiquei uma serie de problemas no documento “A Alma e o Corpo” da UNIPA – Uniao Popular Anarquista.E esse topico antes de ser uma tentativa arrogante de apontar erros, serve ou serviria mais como um momento de reflexao para contribuir com o debate de ideias.

No documento os signatarios dividem a organização de massas em seções centrais e seções corporativas.Falando da necessidade da existencia de “nucleos duros ou nucleos geradores” dentro dessas organizaçoes de massa.Qualquer semelhança com vanguarda revolucionaria não é mera coincidencia.

E o termo 'vanguarda' aparece no documento quando afirma: “As seçoes centrais reuniam exatamente os militantes da vanguarda do proletariado, aqueles que já tinha desenvolvido uma solida consciencia socialista”

E o preocupante trecho: “Para organizar as amplas massas é preciso, no entanto chegar ate elas e convence-las de se organizarem”

Deve-se questionar utilizando passagens da carta de Macarrao quando se refere a movimentaçao em torno no chamado “Comite Popular da Copa” - articulaçao dos moradores que lutam em torno dos impactos socio-ambientais das obras da COPA DO MUNDO em Fortaleza.

Sera que cabe a uma minoria de eleitos dirigir os moradores do Castelao ou deixar que os proprios se organizem por si mesmos? Sera que cada morador de onde passara o VLV - Veiculo Leve sobre Trilhos - não tem uma noçao na propria carne de que perderá sua casa e poderá ir morar longe dos seus amigos e local de trabalho? Sera que o povo é sempre burro e precisa de meio duzia de especialistas da revoluçao?

O paradigma do “Dielo Truda” - Grupo russo que serve de inspiraçao a UNIPA - tende a uma “bolchevizaçao” do anarquismo, inibindo a criatividade dos sujeitos envolvidos e mergulhando todos numa rigidez programatica intoleravel.

A PROPOSTA INSURRECIONAL E PRIMITIVISTA

“Es necesario partir del nivel real de las luchas, del nivel concreto y material del combate de clase, construyendo pequeños organismos de base, autónomos, capaces de colocarse en el punto de coincidencia entre la visión total de la liberación y la visión estratégica parcial que la colaboración revolucionaria hace indispensable. No se trata pues de propaganda, de «hacerse conocer» por las masas, no se trata de acceder a los grandes medios de comunicación, no se trata de hablar en televisión a millones de espectadores; se trata de realizar en cada hecho de la lucha de masa la conciencia revolucionaria de la minoría, transformando en hecho-concreto la conciencia que en convento minoritario, quedaba en simple abstracción; haciendo que la necesidad del comunismo advertida por las masas se realice, poco a poco, en una concreción cotidiana, en una organización material de la vida.”
Alfredo Maria Bonanno

“Si, por ejemplo, nos limitásemos a denunciar las condiciones de los encarcelados, seríamos sin duda útiles a los compañeros a los compañeros que sufren la represión; pero limitándonos a esto, condenaríamos nuestra intervención a quedar en manos de una minoría externa que se acerca a la realidad y la divisa, se bate por ella y, - al límite, hace algo por cambiarla a mejor. Pero este «cambiar a mejor» es útil también para el poder que, antes o después, debe también decidirse a adoptar sistemas más refinados y socialdemócratas de represión; sistemas igualmente, si no más, eficaces.”
Alfredo Maria Bonanno

“O que significa ser anarquista? Porquê? Porque não é uma definição que possa ser feita para sempre, posta num cofre e considerada um patrimônio que possa ser extraído pouco a pouco. Ser anarquista não significa que se alcançou uma certeza, ou que se afirmou de uma vez por todas “ok, de agora em diante, eu possuo a verdade e como tal, pelo menos do ponto de vista da idéia, sou uma pessoa superior”.
Alfredo Maria Bonanno

Existe no dizer de John Zerzan uma profunda crise em todos os niveis: individual, social, ambiental. O câncer do capitalismo tecnológico esta se expandindo com um impacto devastador.

John Zerzan faz um diagnóstico: “. Liberalismo, esquerdismo, pacifismo são faces de uma falida pseudo-oposição a ordem dominante. A única oposição radical é a anarquia.”
“Civilização, que é baseada na divisão de trabalho e domesticação, também deve ser abolida. Sua lógica desdobradora tem nos levado para a atual condição de vazio, destruição e patologia.”

John Zerzan propõe: “Nosso objetivo é uma comunidade não-hierárquica e face a face. Todo obstáculo para tal deve ser removido. Um grande desmantelamento é necessário para que a natureza e cada individuo seja honrado. A descentralização completa é o objetivo.

Tecnologia e capital a uma monocultura massificada que escraviza toda vida. Produção em massa, fabrica, especialização, pensamento separatista é parte do problema, e não da solução.

Livre associação, autonomia, transparência, espontaneidade, comunhão com a natureza, diversão, criatividade são requisitos para uma existência saudável e livre. Produtividade, hierarquia, coerção, trabalho, consciência de tempo não.

Voto, programas de reciclagem, reformismo, e protestos não têm conseguido realmente nada. Tem que haver um rompimento qualitativo com a Mega-maquina.”

CONSIDERAÇOES FINAIS

O proposito deste ensaio não foi alfinetar ninguem, mas contribuir para o debate sobre as inumeras possibilidades do anarquismo transnacional e cearense, sem redundar em dogmatismos estanques ou cristalizados.

Pesquisador e colaborador do Squatt Toren.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O PROBLEMA QUEER, O FIM DO SISTEMA DE GÊNEROS, SEXUALIDADES


O PROBLEMA QUEER, O FIM DO SISTEMA DE GÊNEROS, SEXUALIDADES

Charles Odevan Xavier

Este estudo é muito ambicioso começando pelo próprio título. E para tal me amparei numa bibliografia que inclui o estudo Teses pelo fim do sistema de gênero da ativista cearense Ilana (publicada na Revista Contraacorrente Nº. 10 Maio-Agosto de 2000), no zine Incógnito: pós-identidade queer do ativista paraibano Lucas Altamar e também no livro Preconceito contra homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade de Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado publicado pela Editora Cortez em 2008.

Mas é lógico que para falar de queers, gênero, sexualidades; a bibliografia não pode só se resumir aos citados.Também vale à pena ler a obra ensaística de João Silvério Trevisan (como também sua excelente obra ficcional); assim como, valeria ver os contos, romances de autores como Silviano Santiago, Caio Fernando Abreu e João Gilberto Noll.

Outro problema desse meu estudo é que ele tem como destinatário principal a militância anarquista ou libertária que lê meu Blog. E esse público não gosta muito do academicismo ou intelectualismo pedante..Por outro lado, não terei culpa se o texto trair aqui e ali um ou outro academicismo, que pode ser interpretado como beletrismo preciosista ou pedantismo esnobe.Minha intenção foi a de fazer um texto mais claro e acessível possível, um texto militante sem dúvida. Espero ter conseguido.

AS TESES PELO FIM DO SISTEMA DE GÊNEROS

“Toda a vida humana foi em nosso tempo, submetida ao domínio da economia através do desenvolvimento histórico do sistema de produção de valores.”
Ilana


O texto Teses pelo fim do sistema de gêneros é um texto de 2000. E como tal reflete aquele momento de efervescência em torno da agenda dos chamados movimentos de Antiglobalização, da AGP(Aliança Global dos Povos) e das agitações dos manifestantes contra a reunião da OMC em Seattle em 1999.

Ilana, na revista, apresenta o texto como uma primeira versão de um conjunto de teses apresentadas como contribuição ao debate, ao Seminário Internacional Sobre Gênero em San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, em Maio/Junho de 2000.

O texto é longo, denso e apresenta em 16 longas teses um vigor crítico e cáustico impressionante. Talvez o leitor encontre uma versão virtual na Internet, basta colocar o título nos buscadores da internet que talvez recupere alguma coisa.

Inclusão ou exclusão do mercado? Trata-se assim de uma completa economização da vida, da redução da vida à economia. Eis a constatação inicial de Ilana.

“O mercado é a supressão radical do indivíduo”.Isso significa que enquanto sou trabalhador, proprietário – ou negativamente, uma desempregada, uma despossuída – (é sempre desse modo que um indivíduo existe para e no mercado), não sou um indivíduo, ou seja, não sou alguém dotado de existência, sentimentos, aspirações, desejos próprios e únicos, mas sou precisamente um mais de uma espécie, ou seja, um trabalhador, um proprietário, um desempregado.

“A negação da individualidade que se realiza sob o domínio do mercado se apresenta, contraditoriamente, como aparição do indivíduo.”

“È assim que os movimentos sociais que manifestam a explosão da reivindicação da diferença são continuamente integrados na lógica mercantil: mulheres – trabalhadoras, consumidoras, nicho de mercado que se abre com a explosão da luta em torno do direito feminino; GLS – consumidores, nicho de mercado, e mercado potencialmente abundante, dizem os analistas, nicho de alta rentabilidade, de alta expectativa de consumo. Negros – consumidores, nicho de mercado: “Negro classe A também consome”. O “politicamente correto” é a expressão mais visível, na esfera dos direitos, da tentativa de captura pela lógica mercantil, da explosão da diferença; todas as formas discriminação são passíveis da intervenção de um advogado litigante em busca de indenizações.”

Ilana fala na estetização que “transforma movimentos autônomos de reivindicação do direito à diferença em ‘nichos de mercado’ é apenas a sua face mais visível: “um novo modo de ser mulher”, “Negro é lindo”...assim, os mass media, incorporam cotidianamente, os apelos da diferença como apelos de consumo”.

Ilana fala do que entende por inclusão social: “trata-se da inclusão social do diferente pelo e no mercado. Redução, portanto, da diferença, à identidade abstrata de ‘consumidores’.

Ilana é radical e propõe a destruição do Mercado: “Destruir o mercado é condição sine qua da constituição da individualidade, da aparição real das diferenças negadas pela universalização da forma mercadoria. Se não nos contentamos em ser portadores (ou em nossa maioria, nas condições do capitalismo atual, não portadores) de mercadorias, é preciso pôr no lugar das relações mediadas pelo dinheiro, relações diretas entre os indivíduos. Sem compreender a centralidade da necessidade da destruição do mercado, não é possível sequer falar de vida: estaremos sempre na esfera do simulacro, na esfera da pura representação da vida.”

Na tese 9, llana define o que entende por Gênero: “O gênero é uma invenção histórica da humanidade, um modo de identidade, de supressão da diferença que se origina numa dada diferença/identidade naturais, a amplifica e institui a partir dela todo um sistema hierárquico e classificatório.

Ilana é contra a naturalização do Gênero: “O gênero não é, pois, um dado natural, mas um modo historicamente determinado de classificar os indivíduos da espécie humana com base numa dada identidade/diferença biológicas, apenas uma entre tantas possíveis.”.

Ilana questiona o papel da tradição: “Se a tradição, se a herança patriarcal é já fundamento de tal naturalização do sistema de gêneros, a introdução das relações mercantis, mais que reforçar a naturalização aprofunda, amplia e universaliza tal naturalização.”

Ilana dimensiona o papel da hierarquização: “O Gênero – como todo sistema classificatório – implicou, historicamente, uma classificação, uma normatização e uma hierarquização. È a partir da identidade de gênero que se instituem as representações próprias à ‘natureza’ do Masculino e do Feminino: o macho caçador – provedor, a fêmea reprodutora; o masculino, ativo e o feminino, receptivo.”

Algo permanece: “uma permanência central: a hierarquização dos papéis e o lugar da subalternidade do Feminino.”.

A ativista cearense dimensiona o patriarcado: “Foi do ponto de vista de sua gênese histórica, o patriarcado que inaugurou o poder nas relações humanas. A dominação de gênero é, assim, historicamente, fundadora – anterior, portanto à dominação étnica, à dominação de classe.”.

E Ilana recomenda que na negação do sistema capitalista: “Se a negação do sistema, como foi dito acima, encontra o seu lugar privilegiado, quanto ao sistema de gêneros, nas mulheres e homossexuais, pela sua condição de subalternidade, que seja no combate à subalternidade submetendo ao combate mesmo a idéia de gênero enquanto tal, ou seja, que o combate à subalternidade do feminino e à exclusão possa ir à raiz do problema compreendendo que a crítica à situação de opressão feminina ou contra a homofobia só se realiza, na radicalidade, como crítica ao sistema de gêneros em sua totalidade, ou seja, como crítica ao sistema enquanto tal.”.

Em tom ligeiramente diferente é o texto do ativista paraibano Lucas Altamar Incógnito: pós-identidade queer. Lucas começa o texto com bom humor e ironia dizendo não achar agradável fazer um “dossiê de estudos queer”. E se assume como um queer falando da perspectiva de dentro, enquanto os acadêmicos falam do queer bacharelisticamente.

Diferente de Ilana, que por ser professora universitária, imprime um tom de seriedade ao texto, Lucas tem um estilo que comporta digressões pessoais e narrativas, uso de gíria juvenil, entre outros recursos estilísticos.

Tanto que diz ser seu estudo “uma produção marginal queer”.

MAS O QUE DIABO È QUEER MESMO?

“Paradoxalmente, admitimos mais uma vez que a pós-identidade queer exprime uma recusa em levar a sério as identidades, que há um século, serviriam para designar e mais frequentemente que outra coisa, em ostracizar os indivíduos em razão de seu sexo, de seu gênero ou de suas diferenças eróticas”.

Lucas Altamar

Segundo as pesquisas filológicas que Lucas fez, Queer (kui’r) vem de uma etimologia confusa que tanto registra o termo literal “bizarro”, mas que pode ser também mas atualmente entendido como “original, excêntrico, singular, raro, infrequente”. Pelo que entendi da explicação de Lucas Altamar, o termo vem do coloquial inglês, seria a gíria mais próxima de “estranho” em português, parecendo ser a superposição do significado da palavra queen “rainha” Assim o significado desta confusa gíria seria usado para fazer alusão a um ser masculino bastante efeminado, pois este seria ao mesmo tempo uma rainha e algo masculinamente excêntrico.

Em sua pesquisa, o ativista paraibano diz que o termo foi variando de época para época e de lugar para lugar.

A HISTÓRIA DO QUEER

Enquanto Ilana centra sua munição discursiva no Mercado, Lucas vê o Estado como inimigo máximo.E vê o queer como uma movimentação que surge da necessidade de um libertação dos separatistas e excludentes reivindicações dos movimentos que anteriormente tinha o status de oprimidos e que, na sua avaliação, acabaram sendo absorvidos pelo Estado.

Lucas entende identidade como “contíguo de caracteres próprios e exclusivos de determinada pessoa. Este conceito, entretanto, está ligado a atividades da pessoa, à sua biografia, ao amanhã, sonhos, mitos, características de originalidade e outras características relativas ao sujeito.”

Segundo o autor do CD Verborréia, o movimento gay identitário hoje gosta datar seu ponto de início a partir do final dos anos sessenta, e, em particular é claro, dos motins de Stonewall em 1969.

QUAL A PROPOSTA DE LUCAS ALTAMAR?

“Nós queers chamamos a uma segunda revolução sexual, mas, uma liberação que transformaria mesmo o modo de pensar a sexualidade e de compor com ela, e assim compreender sobre os planos social e político”.

Em suma, o “queer compreende, portanto, rejeitar diretamente as identidades dicotômicas homem/mulher, masculino/feminino, hetero/homo.”.

O autor se reconhece tributário do legado do movimento LGBT e feminista, mas pretende ser mais radical.

Lucas diz que feministas, lésbicas e gays ortodoxos não se cansam de criticar a perspectiva queer, “em razão de sua vontade reunida que terminaria por minimizar ou apagar, acreditam eles, a especificidade de uns e outros.”

“Não exigimos que cada um negue seus pertences, mas antes que percebam seu caráter contingente, arbitrário e político”.

“Nossa vontade é de emancipação e até de subversão em matéria de sexualidade”


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisando os dois autores, Ilana e Lucas Altamar, perceberemos que dois estilos de apreensão da realidade se antagonizam em alguns momentos e enquanto em outros são complementares.

Ilana, professora de Filosofia e leitora da crítica da economia política de Marx, referencia sua tese do fim do sistema de gêneros, dentro do esquema conceitual da teoria do valor e do fetichismo da mercadoria.

Lucas Altamar, poeta multimídia e ativista anarco-punk queer, procura destruir a noção de movimentos identitários a partir de sua vivência contracultural, respalda sua crítica dentro das lides do anarquismo contemporâneo.

Eu vejo um problema na tese Queer. Trata-se de uma crítica aos movimentos identitários – negro, feminista, LGBT, que propõe, no final das contas, outro movimento identitário: o queer. Ou seja, eu não posso ser homem, ser mulher, ser homo, ser hetero, ser bi, mas posso ser queer.Então o que parece a rigor ser uma tentativa de livrar o ser humano de etiquetas ou gavetas classificatórias, acaba criando uma nova gaveta classificatória: o queer.

Mas eu posso estar equivocado e talvez não tenha entendido o queer em toda sua potência ou latência revolucionária. Um outro texto de outro zineiro, ativista e realizador audiovisual, Rui, já acrescenta mais dados à questão; utilizando-se de uma categoria teórica que eu não conhecia – heteronormatização.

Parece que a questão queer embora tenha começado no underground da contracultura homoafetiva americana na década de 60, pode ainda suscitar várias interpretações divergentes ou convergentes.

E caso o leitor se interesse, no site de downloads www.4shared.com há uma versão eletrônica do texto de Lucas Altamar.


Ensaísta e pesquisador.