sexta-feira, 22 de junho de 2012

NEGRITUDE E HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE O TRONO DA RAINHA JINGA DE ALBERTO MUSSA

NEGRITUDE E HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE O TRONO DA RAINHA JINGA DE ALBERTO MUSSA Autor: Charles Odevan Xavier O propósito deste ensaio é esmiuçar a construção dos personagens negros no romance O Trono da Rainha Jinga do escritor carioca Alberto Mussa (Rio de Janeiro: Record, 2007.) Assim, o ensaio pretende analisar também o grau de pertencimento à cultura negra por parte de escravos ladinos, boçais, forros e o relacionamento com os chamados brancos. Até que ponto os brancos do romance estão certamente convictos dos valores judaico-cristãos católicos ibéricos ou de que forma esses brancos se misturam (ou se perdem) nos costumes dos pretos. TENTANDO FALAR DO ENREDO... O romance O Trono da Rainha Jinga está dentro de dois gêneros: o policial e o histórico. Embora o autor negue a segunda categoria no posfácio, inegavelmente a obra de Mussa se filia no espírito das tramas históricas. A trama se passa em Angola, Goa e Rio de Janeiro seiscentistas e gira em torno de uma suposta heresia perpetradas por escravos negros, a heresia de Judas. Há uma galeria multifacetada de personagens: Mendo Antunes, o armador e baleeiro lusitano que enricou em terras de Goa e vai para Angola por não se adaptar aos costumes indianos. Lá chega e passa a fazer transações comerciais com a Rainha Jinga, uma africana que o impressiona por falar fluentemente o português. Gonçalo Unhão Diaz, o juiz e ouvidor geral brasileiro, que faz amizade com o baleeiro e divide com ele suas impressões sobre os supostos crimes perpetrados pelo grupo de heréticos escravos. A preconceituosa e prepotente viúva do alferes e ferreiro, que a despeito de odiar os escravos; reconhece que sobrevive às custas das esmolas de um deles: o escravo Cristóvão. Este escravo, por sua vez, tem importância na trama por ser membro da Irmandade (o grupo herético de escravos), por ser apaixonado por sua líder (a sádica escrava Ana) e por cometer desatinos com o próprio corpo em nome desse amor (como furar os olhos e queimar a língua). Outro escravo importante na trama é Inácio. Educado por padres, aparentemente cristão, culto e alfabetizado. No final da trama revelar-se-á como peça chave nas onda de crimes contra senhores brancos. Há também um curioso índio na trama. Ele é herborista e presta serviços para líder da Irmandade. Ele cria com os fármacos da mata as puçangas e o importantíssimo: divumo diazele, um “violento e letal purgante de cujo preparo especialmente me orgulho” p.73 Este veneno terá importância capital na trama, pois a encomenda da líder da Irmandade detonará uma série de crimes: “Ana conhecia a mandioca brava. Acreditei: se os portugueses trazem gente de lá, podem bem levar de cá uma planta que cresce praticamente em qualquer chão. Só estranhei quando me perguntou se eu conseguiria preparar com aquela raiz um veneno em pó, que não alterasse o paladar e a cor dos alimentos, e que tivesse um efeito tão mortal quando o da água que se esgota dela.” pp. 71-72 Há também uma feiticeira açoriana na trama amancebada com um forro velho, aleijado. A importância dela na trama é porque em sua casa onde recebe clientes brancos de várias procedências, ela receberá frades escondidos que vêm em procura de seus vaticínios. Acontecerá um crime com esses frades que é testemunhado por um dos clientes da feiticeira. “Pois eu tinha ido lá, na casa dessa feiticeira. Era uma mulher sibilina, perigosa, que adivinhava o futuro e preparava filtros para os males do amor, da saúde e da fortuna.” p. 25 O ESTILO NARRATIVO O Trono da Rainha Jinga é narrado por múltiplos narradores constituindo-se num romance polifônico. Isso torna a leitura rica e desafiadora, pois se o leitor não estiver atento à mudança de vozes narrativas perderá o fio da meada. O narrador onisciente só aparece em alguns capítulos quando narra as peripécias envolvendo Mendo Antunes. QUAL O PROPÓSITO DA IRMANDADE? Na pág. 49 o escravo Cristóvão explica a origem da Irmandade: “Fui dos primeiros irmãos. No início, éramos apenas três, dando fuga a escravos e roubando viandantes nas estradas. Muito dos que estão nos quilombos foram libertos por nós. Muitas das cartas de alforria adquiridas pelos padres foram pagas com o nosso dinheiro. Mas era uma subversão atormentada, sem plano. Pode-se mesmo dizer que não tínhamos um objetivo. Até o aparecimento de Ana” A HERESIA DE JUDAS O escravo Cristóvão, autor do que passa a ser conhecido nas senzalas como Heresia de Judas, explica o sentido da mesma: “Enquanto a irmandade se reestruturava, eu refletia. E compreendi, com base no seu próprio pensamento, que Ana não chegaria a lugar algum daquela forma; compreendi a verdadeira lição que se ocultava na história de Judas e Cristo. Se alguém quisesse remir a humanidade pela dor, não poderia ter permitido que esta fosse compartilhada por um outro homem. Judas sentiu em relação a Cristo o mesmo que eu, quando ajudei a trucidar aquele miserável.” pp. 50-51 “Foi quando comecei a difundir a verdade que logo ficou conhecida como a heresia de Judas. Essa verdade que passou a ser o assunto das senzalas. Porque basta um sofredor para que o bem geral se faça. Serei eu esse sofredor. Pelo amor de Ana. Ainda que ela me persiga, me expondo a prazeres que não quero suportar.” p. 51 A ATORMENTADA PSICOLOGIA DO FRADE “ADIVINHAÇÃO (gr. (lavxeía; lat. Divinatío; in. Divínation, fr. Divination; ai. Wahrsagung; it. Divinazioné). Profetização do futuro, com base na ordem necessária do mundo. Era admitida pelos estóicos, sendo, aliás, assumida como prova da existência do destino. Crisipo achava que as profecias dos adivinhos não seriam verdadeiras se as coisas todas não fossem dominadas pelo destino (EUSÉBIO, Praep. Ev., IV, 3, 136). Para Plotino, a A. é possibilitada pela ordem global do universo, graças à qual todas as coisas podem ser consideradas sinais das outras. Os astros, por exemplo, são como cartas escritas nos céus, que, mesmo desempenhando outras funções, têm o papel de indicar o futuro {Enn., II, 3, 7). A A. baseada no determinismo astrológico foi admitida pelos filósofos árabes, especialmente por Avicena, e destes passou para alguns aristotélicos do Renascimento, como p. ex. Pomponazzi {De incantationibus,10).” Dicionário de Filosofia/Nicola Abbagnano – 5ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2007. “Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para se prostituir com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio do seu povo.” Levítico 20, 6 “O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação; deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles.” Levítico 20, 13 “ρονευω porneuo 1) prostituir o próprio corpo para a concupiscência de outro 2) estregar-se à relação sexual ilícita 2a) cometer fornicação 3) metáf. ser dado à idolatria, adorar ídolos 3a) deixar-se arrastar por outro à idolatria” “733 αρσενοκοιτης arsenokoites de 730 e 2845; n m 1) alguém que se deita com homem e com mulher, sodomita, homossexual” DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong - SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL Na obra chama a atenção a quantidade de brancos católicos que absorvem parte das crenças africanas, como por exemplo os clientes do calundu da feiticeira açoriana (ela mesma uma branca que absorveu a magia negra europeia com ciganaria, judiaria e as religiões tradicionais africanas devido a sua amasia com o forro que a auxilia com pontos riscados).Da qual concluímos preliminarmente que estes brancos católicos ou não entenderam o providencialismo bíblico ou não o aceitam. Mas um dos personagens mais curiosos é o frade carmelita. O frade é cliente da feiticeira açoriana. E por tal hábito ele acaba sendo visto por outro cliente, que o reconhece enquanto frade e este cliente fica horrorizado de ver um homem do clero católico frequentando um lugar como aquele: “Quando a conhecemos (porque fomos juntos eu e minha mulher) desejávamos enriquecer e não apenas deixar de passar fome. Tínhamos uma noção muito precisa do que fosse felicidade, no Rio de Janeiro, para não termos ambição. Por isso suportamos a espera no vestíbulo, abafados, amarfanhados, cercados por toda casta de gente e envolvidos por um bafio nauseabundo, até que o forro nos chamasse. A açoriana, sentada à mesa e coberta de colares e anéis de latão, tinha diante de si apenas um baralho sebento, que manipulava segundo vários métodos, naturalmente no exercício de decifrar sua mensagem.” pp. 25-26. O frade carmelita ao ser reconhecido pelo cliente o suborna com duas patacas, pedindo discrição. Vamos analisar a atormentada psicologia do frade. O frade se atormenta pela relação homossexual com outro frade chamado Francisco vaticinada pela feiticeira Açoriana, o que dá credibilidade ao trabalho dela perante o frade. E também se angustia por não esperar pela providência divina como ensina os códex do Vaticano acabando por frequentar o calundu: “Assim, a temporalidade do mundo, de que me deveria apartar (grifo nosso), me obcecou. E me envolvi com ciganas, cabalistas, astrólogos. Até pecar.” p.93 Vejamos como o frade encara a sua homossexualidade: “Ainda não tinha enfrentado o olhar de ninguém: do prior, dos padres, dos meus companheiros de ordem (especialmente do irmão Francisco, a quem imundicei com a lama do pecado) e sequer dos escravos do convento (de quem nunca cheguei a ter suspeitas). O julgamento unânime dos homens certamente me atribuía alguma espécie de remorso ou vergonha. Talvez nem mesmo Deus houvesse de me compreender.” p. 91 A obra do jornalista João Silvério Trevisan Devassos no paraíso: (a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade) – Ed. revisada e ampliada – 6ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2004. - nos ajuda a entender o motivo da angustiada orientação sexual do frade carmelita. Também a obra historiográfica do antropólogo e militante gay Luís Mott sobre a homossexualidade na África lusófona e no atlântico negro é um guia para compreender os ansiosos e angustiados homossexuais seiscentistas. Como também não podemos esquecer as duras palavras do Levítico no Antigo Testamento em relação aos chamados homoafetivos, que a Bíblia nomeia pelo adjetivo genérico de sodomitas. Assim o frade confessa o gosto sodomita ao abade do convento: “Falei da minha paixão por um prazer do século. Padeço desse mal (grifo nosso) desde antes de prestar meus votos. Os corações vulgares deverão dizer que amei ou amo através da carne. Não chega a ser assim.” p. 92 Ou seja, o frade experimenta o desejo homossexual mas o sataniza, o vê de uma forma pejorativa e depreciativa. Porque como frade ele introjetou a noção de culpa que penaliza os gays no Levítico. E além de gay o Frade comete outro pecado: prostitui-se com necromantes e adivinhos. Sim! Prostitui-se! Eis o pesado verbo bíblico para quem vai num macumbeiro. Vejamos como ele afirma o seu “pecado”: “De início jogar às cartas tinha um sentido meramente lúdico. Fascinavam a expectativa do sucesso e o temor do fracasso. Mas com o envolver do tempo, passei a experimentar, em determinadas ocasiões, a convicção acentuada de estar com sorte – o que se confirmava na maioria das vezes. Por isso, porque aprendi a pressentir tais instantes, não me tornei um perdulário e não dispus da minha fortuna de família mais que o necessário para esse pequeno capricho do mundo. Não sei como começou. Mas quando dei por mim, tinha formada uma noção concreta da previsibilidade do por-vir – que não necessariamente conflitava com o livre-arbítrio. Minha tese encontrava apoio na próprias escrituras: Cristo predissera a traição de seu primeiro apóstolo. Portanto, ao menos certos passos, certos momentos, certos eventos da vida estavam escritos, traçados por uma vontade superior, senão divina.” pp. 92-93 “Porque passei a crer, porque pretendi – de livre e boa vontade – ter o domínio do futuro. Não apenas para conhecê-lo; mas para jogar com ele.” p. 93 Deste modo, vemos um homem tipicamente seiscentista. Não podemos esquecer que o Brasil - a despeito de ser produto da Renascença e do ciclo das navegações comerciais mercantilistas - vive no espírito ideológico da Idade Média. Assim vemos um frade dividido entre o racionalismo, as heresias e o apego à ortodoxia judaico-cristã. Também é digno de nota que na Renascença ainda há a Santa Inquisição e o Santo Ofício pune severamente hereges e sodomitas. E por que seiscentista? Porque com o ciclo das navegações e a descoberta do novo mundo (o continente americano), o contato com mercadorias e ideologias da Índia e China e a escravidão compulsória dos africanos, o mundo ficou confuso, em crise de paradigmas. De repente o medievo teocentrista e judaico-cristão perdeu credibilidade no contato dos viajantes com a feitiçaria africana. Sim! O homem não deveria aceitar passivamente a providência, o destino, o fado. Poderia alterá-lo e modificá-lo com magia e despachos. Assim, o mundo europeu desestabilizou-se. E é nesse espectro do fetichismo africano, que surgem brancos como a feiticeira açoriana que não dispensa os pontos riscados do amante forro ou o frade carmelita que acredita nos seus vaticínios. A cultura africana crê na fatalidade, que o destino do homem está predeterminado e pode ser “lido”. Seja através do opelé ifá, do meridilogun (jogo de búzios), do ngombo (estranho oráculo dos povos bantófones da África meridional). Qualquer método é válido para ler o destino seja com o cauri seja com o obi ou seja com os ossos do ngombo. Porque este povo pressupõe que cada um traz o destino de berço e basta ao babalaô, ao ndoki, ao nganga decifrá-lo. O destino na cultura africana subsaariana de expressão iorubá-nagô é chamado de odu. E cabe ao babalaô olhar o búzio para saber com aquele cliente o que aconteceu no passado com um ancestral semelhante. O Brasil, representando o novo mundo, também tem suas crenças indígenas nativas onde a relação entre os vivos e mortos fazem com que todos sejam meio vivos e meio mortos ao mesmo tempo. Pois há na cultura indígena um intercâmbio quase simbiótico entre o que o vivo faz e o que o seu ancestral morto quer e deseja para ele. É desse mundo confuso seiscentista que surge um frade carmelita como o descrito pelo romancista Alberto Mussa. Se ainda hoje os gays, principalmente aqueles que introjetaram algum valor judaico-cristão dos seus pais, experimentam algum grau de culpa pelos seus hábitos sexuais, imaginem para um gay naquela época. Logo o frade gay e macumbeiro de Alberto Mussa tem total verossimilhança. CONSIDERAÇÕES FINAIS No romance O Trono da Rainha Jinga o escritor carioca Alberto Mussa patenteia sua enorme erudição que concilia etnologia, linguística africana, história colonial com um enredo cativante e final surpreendente. Pesquisador e ensaísta.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

CRÍTICA À EXPOSIÇÃO "ENTRE FICAR E IR EMBORA"





CRÍTICA À EXPOSIÇÃO “ENTRE FICAR E IR EMBORA”
Charles Odevan Xavier

Este ensaio visa analisar a Exposição “Entre Ficar e Ir Embora” da dupla “Máquinas que não funcionam” formada por Cris Soares – CE e Emanuel – CE, em cartaz no Centro Cultural Banco do Nordeste” até 12 de Fevereiro de 2012 em Fortaleza-CE.

A Exposição da dupla teve a colaboração/orientação da artista Waléria Américo. Reúne trabalhos de desenhos, fotografias, vídeos e instalações.

APROXIMAÇÃO COM AS VIDEO-ARTES DA DUPLA

Em “Máquina Faz Love” - animação de 6:59 (2010 – um cyber coração vermelho desenhado batendo e bombeando sangue através de canos de ferro. No fundo onde há linhas pulsantes de um eletrocardiograma é sugerido uma cidade grande em cores verdes.

A trilha-sonora resume-se ao suposto barulho do coração batendo.

O desenho é bem feito, mas o espectador fica sem saber se a obra é uma ironia à era tecnocientífica que instrumentalizou até o amor e o desejo ou se é justamente o contrário: uma celebração a uma época de amores plastificados.

Em “Remover este Destino” - (2011) o espectador vê no centro da sala uma plataforma, onde é projetada uma animação que simula as imagens via satélite de uma cidade vista por cima.

A medida que o espectador se aproxima de alguma parte da superfície, um programa de computador move um cursor em cima da imagem fazendo aparecer ruas de um bairro nobre de alguma metrópole, que não se sabe se é Fortaleza ou não. Depois de um certo tempo a imagem amplia-se até ficar num fundo azul texturizado e pixelizado.

Eu como sou um leitor de teoria crítica logo imagino uma associação com a distopia de George Orwell em “1984”, a qual escrita na década de 1930 imaginava um mundo administrado(Herbert Marcuse) e controlado por um televisor onipresente. Hoje o Google Map talvez seja a materialização da sinistra época do “Sorria! Você está sendo filmado!”, cujo reality-shows como BIG BROTHER é apenas sua face mais cínica e tola.

Mas não posso dizer que outros espectadores tenham “politizado” a obra como eu fiz. Afinal a arte, como diz a teoria da informação: não está no autor mas no receptor.

Em “Roupa de Abraço” - (2011) – Um casal vestido com roupas listradas preta e branca de frente um pro outro. O foco da câmera se aproxima do corpo do casal que se abraça.

A cenografia é de um compartimento sem reboco e com lâmpadas penduradas na altura da cintura cria uma atmosfera claustrofóbica.

Depois de um certo tempo o espectador percebe que o casal tem um velcro nas roupas que o gruda um no outro.

Uma possibilidade de semiose: o amor, o desejo, “Eros” na pós-modernidade é sempre vinculado ao “Pathos”.Assim, nunca saímos indeléveis de nossos raros momentos de amor contemporâneo.


A instalação “Coluna”(2011) exibe dois suportes diferentes. Num deles há uma folha de compensado onde a dupla pintou uma coluna cervical em tons brancos e as “costelas” foram feitas de arame enferrujado.

Noutro ponto do espaço há uma coluna de alvenaria visivelmente feia, inacabada, “art brute”.

Uma possibilidade de leitura em que os dois “eixos”( a coluna do corpo e a coluna de alvenaria) simbolizam a fragilização emocional contrastada com a brutalidade dos afetos típica de nossa época de contatos interpessoais digitalizados e mediados por máquinas eletrônicas, faz o corpo humano aparecer escaveirado e fragmentado. Se o leitor não gostou do auto referencialidade da explicação não se preocupe, pois a contemporaneidade é autorreferencial por excelência.

Em “Tijolo”(2011) há dois suportes. Numa folha branca grande aparece um tijolo vermelho pintado em acrílica. Numa outra folha branca menor e ao lado desta, há um rascunho feito em grafite, um estudo do tijolo que vemos colorido do lado.

Será que o tijolo é uma referência de que tudo precisa de um bom alicerce, de uma boa fundamentação para que tenha consistência epistêmica? Pode ser.

Em “Demolições' (2011) Num pequeno quadro com moldura um desenho em nanquim de uma moça nua em cima de uma pilha de objetos cotidianos. Circundando há uma prosa-poética que fala de demolições.

Em “Passarinho pega-ladrão”(2011) uma fotografia colorida mostra um ninho de pássaros sobre um chão de pedregulhos e a dupla de artistas colocaram um pega-ladrão enferrujado.

Em “Caracol-buzina”(2011) numa fotografia colorida a dupla deu um close num objeto metálico corriqueiro também enferrujado.

Em “Desenho de Domingo” um nanquim sobre papel verger mostra uma moça nua, que segura uma haste, onde tenta equilibrar num lado uma porção de barquinhos de papel e noutro um pássaro pousado, para piorar a situação da moça a mesma está sobre um banquinho de madeira.

E por último na instalação “Carta para você” (2011) há uma mesa grande, onde foram colocadas duas máquinas datilográficas manuais antigas com o teclado danifado. Uma em cada ponta da mesa. Ao lado de cada máquina há um pilha de papéis oficios onde se lê o vocábulo 'amor' datilografado inúmeras vezes.

QUE SÍMBOLOS A DUPLA TOCOU?

Se olharmos cada obra da exposição “Entre ficar e ir embora” como frases de um único texto, o que revela esse texto? Esse todo? Cada significante revela uma época em que a subjetividade dos seres humanos do capitalismo transnacional pós-industrial se embotou enrijecendo-se (alvenaria), onde a afetividade se plastificou (a pilha de cartas amaradas) ou se esgarçou (interatividade “high tech”).Assim, o ser humano angustiado vive o dilema de ficar (e portanto, centrar-se) ou ir embora (expandir-se), sempre na corda bamba como a moça nua que segura barquinhos de papel(talvez feitos com as cartas de amor amassadas e não enviadas) e o pequeno pássaro pousado (simbolizando uma liberdade frágil e fugaz).

Cris Soares e Emanuel conseguiram no seu conjunto de obras, suportes e mídias refletir ou, pelo menos sugerir a reflexão sobre a instabilidade das nossas vidas urbanas demasiada humanas.

Pesquisador e ensaísta.

CRÍTICA AOS VÍDEOS RECENTES DA PRODUTORA ALUMBRAMENTO





CRÍTICA AOS VÍDEOS RECENTES DA PRODUTORA ALUMBRAMENTO
Charles Odevan Xavier

Este ensaio pretende analisar a produção recente da Produtora Alumbramento exposta sob forma de três documentários presentes na Exposição “Viva Fortaleza!1950-2010”; a qual teve curadoria de Patrícia Veloso e que está em cartaz no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza – Ceará.

Irei examinar as obras: “Supermemórias” dirigida por Danilo Carvalho; “Casa da Vovó” dirigida por Victor Melo e o “Cidade Desterro” dirigida por Gláucia Soares.

A POÉTICA DA MEMÓRIA

O documentário “Supermemórias” - 35mm, 20 min, CE/BRASIL, 2010 – dirigido por Danilo Carvalho – Dona Bela Amores e Filmes/Alumbramento.

O filme pretende ser um olhar poético sobre a memória afetiva dos fortalezeses anônimos e comuns.

O filme é uma colagem de registros filmográficos caseiros capturados em super8mm de cenas cotidianas da década de 60, 70 e 80 no litoral de Fortaleza.

É interessante ver o filme começando mostrando a pouca ocupação predial da beira-mar fortalezense no ano de 1972.

Na sequência seguinte mostra as ruas do Centro de Fortaleza e sua típica selva de pedra cinzenta.

Em seguida mulheres grávidas aparecem em camas de hospital...corte abrupto: crianças brincando...corte abrupto:um parto no hospital...corte abrupto: onda do mar e imagens capturadas dentro de um barco...corte abrupto: pessoas tomando sol na praia, banhistas pulando da ponte metálica antes da restauração do arquiteto e urbanista Fausto Nilo.

Na trilha-sonora só consegui identificar a voz de Fernando Catatau.

E continuamos vendo jovens de cabelos grandes num provável close setentista; banhistas, famílias ouvindo chorinho e samba; saraus familiares com recitação de poesia.

Tudo muito fragmentado... e tome festas de aniversário de criança.

Até uma interrupção brusca no filme em que aparecem apenas texturas gráficas, enquanto em off voz de pai procura filho e depois voz de mãe pergunta por filho na secretária eletrônica.

Depois o filme volta a mostrar cenas caseiras de “bang bang” de meninos no quintal.

Desfiles de 7 de Setembro desfocadas com imagens sobrepostas de assembléia do movimento estudantil.

Como se vê a arte pós-moderna (Fredric Jameson) ou contemporânea (Michael Archer) canta a banalidade do cotidiano, o ordinário, o comum; e o único momento que o filme poderia ter um viés mais engajado não chega a durar nem 40 segundos, revelando que nós não temos mais tempo para o empoderamento polítcio, para a militância; pois a Assembléia de estudantes (um deles tem uma blusa b ranca com o rosto do Che Guevara) soa como um protesto datado, silencioso e impotente contra o desfile militar que conta com mais segundos, cores, barulhos, sons e glamour.

Assim, diríamos que num filme de 20 minutos - que assisti em pé dentro de um museu – sobre o passado de Fortaleza vivido nos anos de chumbo da ditadura militar há apenas 40 segundos de política explícita, o resto é preenchido pelo mais aborrecido, desfocado, corriqueiro e chato cotidiano.Talvez a intenção política do documentário seja a de mostrar que naqueles anos as pessoas comuns também iam a praia se divertir para talvez esquecer que estavam sob o jugo do momento mais duro do governo Médici.

O resultado icônico é que o vídeo é bem realizado e editado e a trilha-sonora ajuda a criar um clima saudoso nos que eram jovens naqueles anos e curioso nos decendentes dos personagens daqueles anos.

A POÉTICA DA DOMESTICIDADE

No documentário “Casa da Vovó” - miniDV, 24 mim, CE/BRASIL, 2008 – a direção é de Victor de Melo e Alumbramento.

O filme em preto e branco começa com uma criança cantando uma canção folclórica:”como pode o peixe vivo?...”

Dissolvência numa parede branca revelam cenas familiares.

Depois a mesma menina aparece sentada choramingando em cima de uma cama com um livro da escola do lado. Com o tempo ela ri, sugerindo a doçura da infãncia.

A câmera foca o fogão na cozinha fazendo almoço. Uma voz de mulher idosa canta uma música do cancioneiro popular que não consigo identificar.

Depois close na Santa ceia que aparece empendurada numa parede.Sons metálicos de panela e louça.Programa policial de tv ao fundo sonoro.

Foco na cozinha da casa.Fotogramas em dissolvência revelam as festas de aniversário que provavelmente aconteceram ali.

Em seguida uma moça varre a casa.Ao fundo programa esportivo radiofônico.Nesse momento a alvenaria danificada da casa (rebôco caindo) sugere o estrato social de baixo poder aquisitivo daquela edificação.

Jogo de claros e escuros nos “combobòs” e frestas para o quintal onde são estendidas roupas no varal criam agradáveis geometrizações plásticas.

Em seguida uma câmera num tripé mostra num giro de 360º graus a sala de estar dessa casa simples. Chama a atenção a quantidade de gaiolas de pássaros nos sofás.

A arte pós-moderna faz pastiche e assim aparecem meninos mulatos brincando no “terreiro” da frente da casa que evocam o fotógrafo francês Pierre Verger.

Depois close de calendários ou sobre santos católicos compondo uma cenografia “Kitsch” ou cafona.

Uma vela acesa em frente a um santo católico brilha criando forte impacto visual e começa o programa de rádios do Pe. Manzotti, enquanto a moça limpa o banheiro.

Dois planos de imagens justapostas revelam numa metade algo que parece ser uma tela de computador ou tela de televisão e na outra metade: um varal no quintal com bermudas masculinas.

“Casa da Vovò” celebra o cotidiano, o familar, o afetivo, o lugar da delicadeza e da ternura.Além de ser muito belo para os olhos.

A POÉTICA EM TRÂNSITO

O documentário “Cidade Desterro” - DV, 15 mim, CE/BRA, 2009. - dirigo por Gláucia Soares e Alumbramento começa com uma voz feminina em off que descreve o que Glaucia faz com objetos cênicos.Só que mostra apenas os gestos e objetos, o resto do corpo de Glaucia não aparece.

Uma segunda voz feminina diz uma prosa-poética.E numa poética em trânsito a personagem percorre diversos bairros de Fortaleza.Assim temos belas imagens do pôr do sol na Barra do Ceará próximo a ponte do Rio Ceará.E a prosa poética pontua o lugar de forma bonita.

Depois imagens no interior de um ônibus indo ou vindo da Praia do Futuro onde uma mão cola fotos na vidraça da janela do ônibus. Em seguida imagens no interior de um carro revela os morros do Rio de Janeiro ou o aeoroporto Galeão.

Depois a câmera mostra um playground na cidade 2000.

Fotos em preto e branco de homens construindo uma casa.Papel boiando na água do mar.Três negativos de foto são levadas na correnteza.

Uma foto de Glaucia some na correnteza e espuma.

Uma caixa coberta por um papel de bolinhas aparece.Glaucia tira objetos dela: cartas, cd do Chico Buarque, Fotos, pequenos bilhetes feitos à mão, slides, um cd de Elza Soares e o livro “As veias abertas da América Latina” do esquerdista mexicano Edaurdo Galeano.

No inicio do filme eu pensei que a primeira voz feminina sempre descrevendo o que em seguida se ver, fosse um procedimento estético proposital de estranhamento brechtiniano.Mas só no final da projeção e com os letreiros finais é que descubro que se trata de uma áudio descrição para deficientes visuais.

Dos três vídeos examinados é este o mais singelo, leve, com sua bela prosa-poética refrescante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os três vídeos revelam sua filiação a um “zeitgeist” pós-moderno: em que o político é difuso e estetizado; o sagrado, quando aparece, é “kitsch” e cafona; e o familiar e o banal são glamourizados.

Vale a pena ser visto, ainda que ficar em pé nos 59 minutos totais dos três juntos possa causar algum desconforto para o espectador.

Pesquisador e ensaísta.

domingo, 22 de janeiro de 2012

CANÇÃO DOS FRACASSADOS


Estou numa festa de aniversário de uma amiga
fui convidado
todos estão alegres e bêbados
ouvindo rock dos anos 60
e entrei num quarto
e digito esse post

Eles estão brindando o sucesso de suas vidas
Todos ganham dinheiro com suas formaturas
ou tem família que os apoie.

Eu mesmo formado, mal tenho o dinheiro do ônibus
e celebro o fato de ser um desajustado econômico
mas em comparação com um terço da humanidade
desempregada: não estou sozinho.

E canto a canção dos fracassados!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O ESTRESSE DO DIA 05 DE JANEIRO DE 2012





O ESTRESSE DO DIA O5 DE JANEIRO DE 2012
Charles Odevan Xavier

Para poder estar escrevendo essas mal traçadas linhas tive que passar por um perengue familiar, um conflito mesmo com minha mãe, irmã e prima.E minha sobrinha ficou chorando.

Tudo motivado pelo valor da bateria nova do computador.Então posso dizer que meu desassossego familiar custou os módicos cento e cinquoenta reais da bateria nova.E que dinheiro suado!Tudo porque não queria levar o computador para um eletricista mequetrefe que fez apenas gambiarras com a bateria velha( e que sempre se esculhambava) e tinha que voltar lá pra pagar mais pelos consertos que não sustinha em definitivo o defeito.

Faz algum tempo que sei que minha família não fala o idioma que falo.Temos sempre dificuldades de comunicação.Assim, como sou orgulhoso cem-por-cento-de-ferro-nas-calçadas, sempre tenho problemas de sentir-me humilhado, quando peço o dinheiro à minha família que, pela idade quarentona que tenho, poderia já tê-la sem problemas na conta bancária.

Dependo no momento de projetos sociais ligados a uma ONG umbandista.E nenhum dos projetos até agora recebeu verba ou averbação do governo federal.

Minha família me pressiona por resultados imediatos.E não tenho no momento esses resultados imediatos.Isto causa um tensionamento insuportável às vezes.Sinto que minha família não dá crédito aos meus projetos.

E estou envolvido em projetos sociais desde 2010.E dois anos para minha família soa como 40 anos de fracassos.

Ou seja, sinto-me pressionado por eles.E lembro de trechos razinzas de minha mãe falando ainda quando fazia faculdade, que meu curso universitário não ia garantir nem as passagens de ônibus.Ela falou com um toz de voz de desprezo e humilhador.

E assim venho vivendo minha vida com longos períodos de indefinição financeira.E isso provoca mal-estar, se não fosse uma pessoa orgulhosa, não provocaria, mas como o sou: então é o verdadeiro inferno.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ESCRITURA BRANCA.pdf - 4shared.com - document sharing - download

ESCRITURA BRANCA.pdf - 4shared.com - document sharing - download: ESCRITURA BRANCA.pdf

"ESCRITURA BRANCA" foi escrito por mim em Fortaleza - CE no ano de 2004.Ele se trata de um livro de poemas que tem de tudo um pouco, menos poemas de amor.

Experimentos gráficos inspirados na estética concretista, metapoemas, poemas polimétricos, rimas toantes, versos curtos, epigramas.Os temas são filosóficos, metapoemáticos, existenciais, confessionais.

Porém, como disse minha poesia não é amorosa, tento ser o mais cérebral possível o tempo todo.

Boa leitura!

Charles Odevan Xavier