sábado, 29 de setembro de 2007

OS NOVOS DESAFIOS


Recebo, ao meio, dia um telegrama me convocando para assumir uma vaga de professor na rede municipal.
Estou ciente das dificuldades da escola pública e das inúmeras fragilidades dos alunos carentes.
Num país que gasta apenas 1200 dólares por ano com estudante.
Serei pago por isso e estou feliz.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

INSEGURANÇAS


Inseguro venço mais um dia de fome e de misérias afetivas e materiais

Tenho alguma comida, um teto para morar e uma cama para se deitar

Moro com pessoas que não sei a língua

Namoro com alguém que me ilude

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A METRÓPOLE


A Metrópole me vem desesperada

em fluxos urbanos de pessoas procurando empregos

e sentidos

de sinais de trânsito vermelhos

de portas fechadas

de pichações políticas competindo com o

cartaz da última banda de forró

ou do mais recente festival de reggae

muros borrados de fuligem

sacos plásticos a flutuarem levados pelo vento


de carros passando em disparada

de ônibus lotados

de poluídos rios sujos e fétidos

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O DIA QUE DEIXEI CURRÍCULOS NO COMERCIO


Estou tão sentido hoje, tão magoado, que não sei como artigular a mágua ou o ressentimento no papel...

...eu graduado em letras...quase mestre em literatura...e tendo que deixar currículos no comércio de Fortaleza.

Será que terei de passar horas em pé até o Natal, cheio de varizes e aguentando o mal cheiro de clientes chatos e esnobes nas sapatarias?

Divagações amargas!

Não perdou a minha mãe por não me apoiar em nada!

ONDAS MÉDIAS


Embriagado

ouço besame mucho

em ondas médias

e outras temporalidades

invadem chiadas

o meu quarto.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A PADARIA ESPIRITUAL SEGUNDO GLEUDSON PASSOS


Este texto é uma resenha do livro "Padaria Espiritual: Biscoito fino e travoso" de autoria do historiador Gleudson Passos Cardoso, faz parte da Coleção Outras Histórias editada pelo Museu do Ceará e Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará Gleudson Passos Cardoso, nascido em Fortaleza, graduado em História pela UFC e mestre em História Social pela PUC-SP, é professor de História da Unifor e do Projeto Magister/UFC. Membro atuante da Sociedade de Belas Letras & Artes Academia da Incerteza. É poeta, tendo se especializado na arte do soneto. Autor do livro "Fraya Zamargad: Sonetos de Amor e Melancolia". O livro "Padaria Espiritual: Biscoito fino e travoso" é uma espécie de resumo de sua dissertação de mestrado cujo título é "As Repúblicas das Letras Cearenses: Literatura, Imprensa e Política (!873-1904)". A obra traça um panorama do contexto peculiar da Fortaleza do Séc.XIX que gerou a singular confraria de escritores da Padaria Espiritual. A Padaria Espiritual foi um grupo eclético em atuações e tendências literárias. Liderada pelo escritor Antônio Sales, tinha como principal propósito alfinetar a burguesia ignara. Gleudson Passos revela no primeiro capítulo a constituição dos grêmios literários que antecederam os escritores do Jornal "O Pão". A Academia Francesa, segundo o autor, em muito difere do grupo de Antônio Sales. Enquanto Rocha Lima, Capistrano de Abreu, Araripe Júnior e outros surgiram para combater a Igreja Católica, nas páginas do órgão maçônico "Fraternidade", como estandartes da sociedade industrial-civilizatória, entendido como culto ao progresso, a tecnologia e a ciência; o grupo dos padeiros, por sua vez, revestia-se de um certo saudosismo em relação a uma cidade que perdia seus encantos brejeiros e assumia terríveis ares de metrópole. O autor informa que enquanto outras agremiações como o Centro Literário e a Academia Cearense procuravam disseminar a ideologia do progresso, seja relacionada ao regime republicano ou ao conhecimento científico-tecnológico, a Padaria Espiritual optou por interpretar a realidade nacional de acordo com a realidade popular que compunha a nação brasileira. Isso se traduz numa certa aversão aos estrangeirismos, tão comuns à moda e ao "mundanismo" que os produtos fabricados nos países industrializados trouxeram aos centros comerciais e áreas de influência mais recônditas. Desse modo, o historiador identifica alguns traços de teor nacionalista. Entretanto, a Padaria Espiritual não era um grupo homogêneo. Gleudson Passos comunica que as posturas variavam bastante. Na paleta dos "forneiros" podia-se perceber desde as cores alegres da filosofia do progresso com Antônio Sales e Álvaro Martins até os tons escuros do pessimismo satânico e a descrença na civilização industrial com Lívio Barreto, Lopes Filho e Cabral de Alencar. Com base nisso, o historiador pinça trechos de crônicas em Antônio Sales e o republicano exaltado Álvaro Martins revelam a crença de que a normalização dos espaços p[públicos e a correção de comportamentos transgressores à ordem urbana contribuiriam para o progresso, o bem-estar social e a moralidade. Por outro lado, membros do grupo como Adolfo Caminha identificava nos regeneradores da ordem sócio-urbana (médicos, higienistas, urbanistas, engenheiros), nas classes urbanas emergentes e nas facções políticas oligárquicas, os agentes de imposição de uma violenta disciplina urbana, a reproduzir o consumismo selvagem, bem como concentrar poder político com mandonismo, violência física e atos ilícitos, nepóticos e clientelistas. No segundo capítulo, Gleudson Passos compõe o painel da formação da Padaria Espiritual. Segundo o autor o grupo era formado por rapazes oriundos dos setores médios e baixos da cidade e do interior. Eram, portanto, funcionários da alfândega, caixeiros, escritores menores, sem filiação com as facções político-oligárquicas e buscavam ascensão pública e social. No terceiro capítulo o historiador recupera a importância do fundador do grupo, Antônio Sales. Gleudson Passos mostra em que medida a atuação publicitária do autor de "Trovas do Norte" projetou o grupo não só no Ceará, como nos grandes centros. Antônio Sales enviava o "Programa de Instalação" para vários escritores do eixo Rio - São Paulo e pedia colaboradores para o Jornal "O Pão" em todo o país. Com esta estratégia a Padaria Espiritual passou a ser referência de literatura feita no Ceará. No quarto capítulo, Gleudson Passos mergulha nos meandros da chamada "literatura menor" do Ceará, isto é, feita por apreciadores da estética simbolista. Assim, os padeiros "nephelibatas" beberam nas fontes de Baudelaire, Verlaine, Antero de Quental e Antônio Nobre. O autor entende que o trabalho de Lopes Filho, Lívio Barreto e Cabral de Alencar está calcado no estilo dionisíaco, herdeiro do barroco e sobretudo do romantismo, em que deram-se por rebelar contra as estratégias de controle simbólico, como a crença ortodoxa na ciência, no progresso técnico-industrial e na democracia liberal. No último e breve capítulo, o autor procura estabelecer uma relação nem sempre amigável entre os escritores e a imprensa local. "Padaria Espiritual: Biscoito fino e travoso" é uma obra curta (93 páginas) e bem urdida, feita com apuro e lucidez crítica. O texto de Gleudson Passos é saboroso e fluido. O autor não faz crítica literária e nem é esse o objetivo de um historiador, mas procura investigar em que medida o literário pode ser uma porta de acesso a um tempo esquecido. Mestrando em Letras-UFC.

A SOCIABILIDADE GAY


Este texto não é fruto de uma rigorosa pesquisa científica, com todo rigor nas amostragens e nem com rigoroso tratamento estatístico de dados.Nada disso.O texto é uma simples constatação subjetiva e empírica (por isso mesmo, sujeita a erros e generalizações) do tipo de sociabilidade construída por gays.Não posso falar de uma sociabilidade gay geral, mas da sociabilidade gay de Fortaleza (capital do Ceará, estado do Brasil).Também não conheço a sociabilidade gay lusitana, mas um dia pretendo dar aulas de literatura brasileira em Portugal.Ou seja, resolvi falar do que conheço para que vocês comparem com o cotidiano gay de vocês.Bem.Se a sociabilidade pós-moderna em geral é marcada pela superficialidade, a sociabilidade gay não fugiria de uma tônica dominante de época.O gay de Fortaleza dispõe de alguns equipamentos públicos e privados feitos para o seu deleite.Saunas, bares, móteis, cines pornôs e boites fazem parte do cotidiano gay de Fortaleza.Esses lugares tem suas regras próprias de convivência.Por exemplo, nas boites da zona rica da cidade, se você vier da parte pobre da cidade, será efetivamente ignorado pelos frequentadores.Parece que eles (os gays ricos e sofisticados) têm um faro para detectar gays pobres e se isolar deles ou isolá-los.Já nas boites do centro da cidade, a possibilidade de encontrar alguém e "ficar" por uma noite é alta.Já que nas boites ricas, os gays abastados ficam só exibindo suas roupas de griffes e não se relacionam com ninguém.Nas boites pobres do centro as pessoas vão para "namorar" e/ou fazer sexo.Mas apenas isso.Nos cines pornôs a regra é nunca perguntar o nome da pessoa a qual você está tendo contato físico.Porque ele pode ser casada com uma mulher.E aí as pessoas entram em cabines desconfortáves, fazem sexo e depois saem como se não conhecessessem.É assim que funciona.Em suma, o gay de Fortaleza tem uma facilidade enorme de criar vínculos e de desfazê-los com a mesma rapidez.É isso que chamo de superficialidade.Os laços sociais são muito esgarçados, tênues e frágeis.A cultura gay de Fortaleza é uma boa fonte de renda para psicanalistas e psiquiatras.Conheço muitos gays que se queixam de depressão, angústia e melancolia.Muitos nem sabem a razão de estarem assim.Mas penso que é devido ao nosso tipo peculiar de envolvimento emocional, ou seja, um envolvimento nulo.Eu me queixo disso.Mas não sou ingênuo de achar que isso é um privilégio da cultura gay.Penso que isso que estamos vivendo está disseminando por todos os estratos sociais, inclusive os não-gays.Vivemos na era da superficialidade das relações e de uma cultura da banalização do sexo, da violência que se traduz nos programas idiotas das tevês pagas e em talk shows imbecilizados e imbecilizantes.Eu luto contra isso no meu cotidiano.Gostaria de ouvir as opiniões de vocês acerca do meu comentário.